Opinião
Salve-se quem puder
O vídeo de uma abordagem policial a motoqueiro em movimentada avenida no Rio de Janeiro, surpreende todos que o assistem. Dois policiais usam a viatura para interceptar o veículo do suspeito e o obrigam a descer para os procedimentos de praxe ? mão na cabeça, encostá-la no teto da viatura com inclinação aproximada aos 45º, um inicia a revista em busca de arma e droga e o segundo faz a cobertura com arma. Esqueceram de combinar com o suspeito, que reage de forma violenta tentando fugir e levar consigo o fuzil de um policial, chegando a provocar disparo que as imagens não conseguem individualizar a autoria. O suspeito, agora já bandido, suspende a fuga e volta para buscar o rifle que tentara arrancar do policial, entra na viatura e as imagens de ousadia marginal e despreparo policial vão se multiplicando. Chega mais um policial, à paisana e de folga, para ajudar os colegas e finalmente, depois de levarem algumas mordidas, conseguem algemar o bandido. Os bandidos parecem não ter limites, invadem quartéis das forças armadas em busca de armamento e munições, pois já não se intimidam com construções decoradas com camuflagens de guerra, acesso dificultado por obstáculos metálicos e controlados por sentinelas armados com fuzis. Aqui na Terra dos Marechais, bandidos já invadiram delegacias para liberar presos e roubar armas de fogo. Um jovem no município de Pilar arrancou a arma de policial e matou uma pessoa que lhe conduzia até a unidade militar. Policial morto em serviço ou durante o bico virou rotina, significando apenas mais uma estatística a ser representada em frios gráficos de relatórios gerenciais. Moradores da Favela do Dique Estrada atearam fogo nas instalações do 1º Batalhão de Polícia Militar, naquele bairro, utilizando-se de coquetéis molotov, artefato explosivo e incendiário muito empregado nas guerrilhas urbanas. Pretendiam arrancar dali rapaz que surrara um dos membros daquela sofrida comunidade, e fazer justiça com as próprias mãos, possivelmente para matá-lo. Essas manifestações criminosas ousadas, população revoltada, polícia despreparada e desmotivada formatam o sentimento do ?salve-se quem puder?, diante de uma estrutura de Estado cada vez mais desarticulada no enfrentamento da violência em suas diversas formas, independentemente de quem esteja no comando das forças policiais e do Executivo. Parece não haver limites. (*) É delegado de Polícia Civil.