Opinião
De Carmen para Carmen
Neste mês de maio, faz um ano da partida de minha inesquecível avó Carmen ao plano transcendental, onde acredito que um dia, tudo a seu tempo, todos nós estaremos unidos pelos laços da espiritualidade eterna. Realmente, o ciclo vital, com suas sucessivas fases e respectivos desafios, apanha todos os seres humanos, que ao nascer um dia enfrentam a morte independente de qualquer condição. Quanta saudade de um ser pequenino na dimensão física, mas de grande força interior, contadora de casos e causos dos mais divertidos e variados, sempre com contagiante senso de humor e oportunidade. Carmen Vasconcelos Marinho de Gusmão era natural do município de Porto Calvo, em Alagoas, e morreu aos 90 anos deixando, para todos nós um exemplo de caráter e altivez que eram dignos de uma verdadeira matriarca. Sim, era de uma determinação e segurança impressionantes e, quando chegávamos à sua presença com alguma preocupação ou problema, logo tratava de encontrar prática e efetiva solução, fortalecendo em nós a capacidade de superação, sendo a objetividade uma de suas marcas registradas. Vovó Carmen era daquelas que não pecava por omissão, pois o seu senso de justiça instigava-lhe a fazer a diferença, a partir de uma postura, uma opinião e, se fosse o caso, de uma repreensão, fazendo valer a máxima bíblica do Apocalipse de que se deve ser quente ou frio, pois, certamente, o morno ela ?vomitaria?. Ah, como sua presença me fazia bem, era uma verdadeira dose de energia e otimismo ao longo do dia, da semana... da vida! Uma querida vizinha chegou a afirmar que bastava ouvir a voz da vovó para se sentir mais fortalecida e confiante diante dos obstáculos da vida. Tinha um tino administrativo capaz de tornar o seu lar, a sua Fazenda Lagoa do Peri Peri ou o que quer que fosse incumbida de cuidar local de organização caprichosa e funcionamento eficaz. Enfrentava os momentos difíceis, com a mesma determinação e força interior. Lembro-me de que num intervalo de 7 meses perdeu meu saudoso avô Marinho e minha amada mãe Heloísa. Ainda, assim, permaneceu firme em seus propósitos, pois a sua missão continuava. Era como o astro rei a nos iluminar e nós meros planetas em órbita obediente à sua influência. Particularmente, sinto-me orgulhosa de ser sua neta-xará e ela sabia disso. Muito devota a N. Sa. do Perpétuo Socorro, penso que não por acaso a sua partida de nós se deu em pleno mês mariano. Dizia-me que, desde solteira, a missa diária no mês de maio e a oração diária do Terço misericordioso eram tradições católicas cumpridas com muita devoção, tais como rosas oferecidas por amor à Mãe de Deus. Pois bem, vozinha tão querida, descanse em paz, na certeza de que bem cumpriu sua missão. Agradecemos a Deus o dom da sua vida no largo período de existência entre nós e que possamos nos inspirar no seu exemplo de amor e zelo por todos os seus valores morais e espirituais. (*) É procuradora federal.