Opinião
Passageiro da vida
Lutastes bravamente pela vida. Enfrentastes a doença com altivez, perseverança e esperança. Fostes uma heroína. Mostrastes coragem. Aceitastes toda forma de tratamento, sem desanimar. Por semanas e semanas abandonastes a lida diária no Bananal. Foi preciso deixar o esposo, o irmão, o sobrinho, a mercearia e rumar para Maceió na esperança da cura. O tratamento provocou a queda em teu cabelo, uma, duas vezes. Com um gorro ornastes a cabeça e, sem perder a esperança, continuastes na lida costumeira: todo sábado ir a Viçosa fazer as compras da semana para suprir a mercearia; no mutirão, devotamento total ao teu santuário em louvor à imagem da Mãe Rainha; no posto de saúde, assistência aos médicos que lá freqüentavam; na tua mercearia atender os fregueses com solicitude e carinho; na tua casa receber as visitas dos parentes e amigos que te visitavam para saber sobre tua saúde. Tinhas a grande esperança de ficar curada. O mal foi te vencendo. A doença progredindo minando tuas forças. A moléstia foi se alastrando por todo teu corpo. Veio a fraqueza e com ela o desânimo, mas só nos últimos dias, porque ainda continuastes lutando. A derrota se pronunciava injusta porque merecias viver. Tua vida Selma, foi ceifada antes do tempo. Selma, tua ausência vai fazer muita falta. Teus parentes, os amigos, teu esposo e todo povo do Bananal chora tua partida. Sentimos tua perda porque sempre nos acolhias em tua casa de braços abertos, desde quando, vinte de março de 1964, casastes com Cante Vital e viestes residir em Bananal. Tua casa lembra-me bem, sempre estava cheia dos parentes; na Casa Vital, a tua mercearia, atendia todos com especial atenção. Como funcionária do posto de saúde do nosso povoado atendia diariamente aos doentes. Andavas quilômetros para aplicar uma injeção ou fazer um curativo naqueles que não estavam em condições de se deslocar ao Bananal. Eras uma das catequistas e zeladoras da igreja do nosso povoado. Somos passageiros da vida. Andarilhos do tempo, contra o tempo. O tempo às vezes faz uma presepada e despacha um passageiro antes do seu tempo. O tempo é eterno, nós somos temporários. Seguimos pela estrada da vida que vai ficando para trás. No caminhar, semear o bem durante nosso breve percurso é como ornar o caminho para aqueles que vem depois de nós. Selma, tu serás sempre lembrada com admiração e carinho porque, na estrada de tua vida, sempre plantastes a bondade e a comiseração ao teu próximo. Selma, durante tua existência sempre fizestes amizade com todos com quem convivestes. Eras uma pessoa fora de série, única, sem igual. Saudade, grande amiga. (*) É engenheiro civil e escritor.