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Opinião

Os primeiros passos na cr�nica

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Alguns anos depois de formado ? sempre voltado para interesses em literatura ?, procurei um jornal local e solicitei espaço de uma coluna semanal para escrever sobre assuntos relacionados à Medicina. O chefe da redação respondeu-me que era impossível; não explicou o porquê, mas ofereceu-me escrever sobre política internacional. Relutei; tratava-se de um assunto fora de minha ótica de conhecimento. Entretanto, como sempre gostei de desafios, terminei aceitando. Daí em diante, todas as semanas, fui à Biblioteca Pública ler os jornais do Rio de Janeiro e bisbilhotar sobre os temas que estavam em pauta. Os Estados Unidos lideravam o noticiário: americanismo e antiamericanismo, a guerra do Vietnã e o empenho desse país em assegurar a liderança mundial. No Vietnã, milhares de jovens morriam por uma causa que nem sabiam exatamente qual era. Um fato que me impressionou. Durante um estágio que realizei na Universidade de Athens, Estado de Ohio (EUA), assisti à cerimônia fúnebre religiosa em homenagem a estudantes dessa universidade que haviam morrido no Vietnã. Uma juventude sacrificada por interesses imperialistas, bilhões de dólares gastos inutilmente ? era o que se ouvia. Defesa da democracia, diziam os governantes americanos. De agora em diante, tento condensar a opinião de meu irmão Rui Medeiros, escritor e jornalista, que na década de 70 trabalhava no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, sobre o imperialismo americano. Dizia: ?Desde que acordamos até que adormecemos, passamos o dia todo, sem o perceber, mandando dinheiro para os EUA. Senão, vejamos: abrimos os olhos, pulamos da cama e acendemos a luz, lâmpada Philips ou GE. Vamos ao banheiro e escovamos os dentes: a pasta é Colgate, de perfumaria americana. Em seguida tomamos banho com sabonete Lux, Palmolive ou Lever, todos de indústrias dos EUA implantadas em nosso País; somente a água é brasileira, assim mesmo tratada com produtos químicos, como o cloro, de indústrias americanas. Trocamos de roupa e entramos no elevador: é Atlas ou Otis, multinacionais cujo maior número de acionistas está nos EUA. Descemos à garagem para pegar o automóvel: é Ford ou Chevrolet, com matriz em Detroit e filial em São Bernardo do Campo. A caminho da cidade, abastecemos o carango com gasolina Esso, de uma subsidiária da Standard Oil.? Muita coisa mudou desde então, mas, na época, essa era a opinião dominante no Brasil. Vale destacar: essa coluna sobre política internacional foi a ponta de lança de minha futura colaboração jornalística. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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