Opinião
Meus homens que j� se foram
Cada vez, com mais frequência, me lembro deles. Nas alegrias e ou tristezas, suas lembranças estão sempre presentes. Estas lembranças me embalam o espirito, me engrandecem, me fazem melhor. Como eu gostaria de tê-los mais. As lembranças veem de longe. Pela ordem cronológica, me lembro primeiro do mais velho. Homem simples, feito no trabalho e na luta, com pouco estudo, foi um dos melhores comerciantes que conheci. Honesto, impetuoso, gentil, conquistava comercial e socialmente quem lhe conhecia. Grande, bonitão, branco, cabelo e bigode pretos brilhantes, sempre bem vestido (calça de linho branca, gravata e camisa de manga arregaçada), perfumado, e impecável nos gestos, era meu avô. Quantas vezes lhe perturbei com minhas travessuras de criança, quantas vezes! De sua breve e aparente ira, brotava, em seguida, todo o amor e proteção que só um avô sabe dar. Com que orgulho saía com os netos maiores para tomar umas cervejas e dançar nas festas. Levava sempre os dois netos para casa, ?biritados? e protegidos. Contador de historias nos deliciava com seus ?causos? e fatos de sua vida. Como eu gostaria de ter sido um neto ainda melhor, mas eu era só um jovem, e um jovem quase nunca compreende a grandeza do amor de um mais velho. Foi e sempre será assim. Quanto orgulho e ensinamento esta lembrança traz para mim. Meu segundo homem era o perdão em pessoa. Homem atual no seu tempo viveu a vida de um jovem estudante, advogado, e juiz. Imagino este homem tendo que julgar pelos autos, pela frieza da lei. Saiu dessa logo. Sua imagem para mim e para meus irmãos é de um grande pai amoroso, compartilhador de todos os momentos, amigo, irmão, presente. Inteligente, atualizado e safo, assim era. Grande orador, profissional atualizado e comunicativo, nos contava umas historias de uma guerra onde nós, os filhos éramos os personagens. Não havia mortos, só eventos. As historias nós ouvíamos sentados no chão, na esteira de vime, ao pé de sua rede, com a luz acesa apenas no final do terraço da grande casa no sítio do tabuleiro, e só eram interrompidas com um suspense, como numa novela, quando queria tomar seu cafezinho e fumar o seu cigarro. Amávamos estas historias. Sua vida sabíamos toda, contada por ele. Assim nos criou, livres, confiantes, amados, sem medo. As poucas vezes que merecidamente nos castigou, fizeram sofrer mais a ele do que a nos. Grande pai tivemos. Dizia para orgulho dos filhos, que os seis juntos não valiam sua mulher, nossa mãe. Seu sobrenome deveria ser amor e perdão. Outro espelho para o meu proceder. O terceiro homem da minha vida era quase eu mesmo, um pedaço de mim. Companheiro, irmão do peito e do coração. Amados irmãos eu tenho, mas pela diferença de idade e pela afinidade, éramos mais chegados. Ah! meu mano, como nos amávamos. Quantas aventuras juntos, quantas lembranças. As aventuras, as namoradas que trocávamos, as confidencias, a cumplicidade, a proteção mútua. Fizesse ruim comigo, mas com você, de jeito nenhum. Ele dizia que eu sempre fui seu exemplo e ídolo. Nunca de sã consciência quis ser. Só queria de fato ser seu grande irmão, e acho que fui. Lembrar estes três me entristece por não tê-los mais, mas, me da à certeza da grande dádiva que a vida me deu, de ter, avô, pai e irmão, como os que tive. Obrigado aos céus e a vida. (*) É engenheiro.