Opinião
Novidades do c�rcere
A partir de julho deste ano, só irão para a cadeia aqueles que cometerem crimes punidos com penas superiores a quatro anos, assim, criminosos flagrados em crimes de formação de quadrilha, porte ou disparo de arma de fogo, furto, receptação, apropriação indébita, corrupção de menores, cárcere privado e outros mais, não serão mais encarcerados, pois terão direito a fiança arbitrada pelo Delegado de Polícia que o autua. A polícia prende e a própria polícia solta. A argumentação dos legisladores é de que cadeia não ressocializa ninguém e a superlotação nos presídios só serve para especializar presos no crime. Quando vejo isso, lembro logo do marido que flagra a companheira com outro no sofá e, furioso, tentando solucionar o problema, rasga o móvel, retira-o da sala e tudo fica resolvido. O mesmo argumento é usado para a descriminalização do uso de drogas e vai se repetindo para outros delitos, como que livrando criminosos da cadeia se evitassem crimes. Na minha carreira policial tenho constatado crescimentos e favorecimentos à atividade criminosa, na mesma proporção das dificuldades em prender e manter encarcerado por parte de policiais e autoridades judiciais. Trazendo para representação gráfica, são retas que já se encontraram e se distanciam a todo o momento. Ainda na conformidade da argumentação dos especialistas que parecem desconhecer presos, seguirão para o cárcere apenas os já graduados em crimes, buscando a pós-graduação e outras especializações, principalmente no tocante aos planejamentos estratégicos, identificando as poucas ameaças e as inúmeras oportunidades. Os cursos são de curta duração, mas intensivos com aulas nos três turnos, folgas apenas nas visitas dos familiares e amigos às quintas-feiras e domingos. Se alcançarem boas notas, ganham folgas nos indultos, fazem alguma aula prática nas ruas e voltam para reavaliações. Surpreende o fato de todos concordarem que cadeia não conserta criminoso e, no entanto, não apresentarem nenhuma novidade na gestão no sistema penitenciário. Por que a cadeia não ressocializa? Por que os presos comandam crimes de dentro do presídio? Por que os presos não são obrigados a trabalhar, mesmo considerando os altos custos de suas estadas? Essas e outras perguntas parecem não incomodá-los. Se a cadeia não ressocializa o criminoso iniciante, também não irá ressocializar o mais arrojado e periculoso. Enquanto isso, os contribuintes, investem o pouco que lhes resta na segurança de seus domicílios e pessoal, com grades, cercas elétricas, concertinas metálicas, ofendículos em todos os acessos e perímetros, seguros altos, emprego de cães, câmeras de segurança e alarmes, verdadeiros cárceres privados, onde a leitura obrigatória é a de manuais da vítima, periodicamente apresentados por autoridades policiais na mídia. (*) É delegado de Polícia Civil ([email protected]).