Opinião
Um ano ap�s a enchente do Rio Munda�
Um ano após as enchentes que arrasaram as cidades ribeiras de Alagoas e Pernambuco, o desafio e a necessidade de saber como estão os moradores e quais as reais condições das regiões afetadas foram as responsáveis por uma mochilagem descendo o Rio Mundaú, desde a nascente até a sua foz em apenas uma semana. Mesmo sendo pouco tempo, mas foi o suficiente para ouvir e compreender que a necessidade é muito maior que a razão e em muitos dos casos a negligência das autoridades políticas são notórias. A aventura em busca da memória de um ano após a enchente começou pela nascente do rio Mundaú em Garanhuns, município de Pernambuco, no dia 13 de junho e terminando na cidade de Rio Largo (já em Alagoas), no dia 19, participando no fim do dia de uma manifestação religiosa organizada pela arquidiocese de Maceió, na cidade de Branquinha. Muitas histórias, relatos e vivências foram especiais para uma maior compreensão da gravidade ocasionada há um ano, ou melhor, no dia 18 de junho de 2010. Esta não é a primeira cheia que afeta a região. A primeira registrada na memória popular ocorreu em 1962, responsável apenas pela inundação das cidades banhadas pelo rio. Cerca de 30 anos depois uma nova enchente assolou as cidades, desta vez com uma maior força e consequências bem maiores que a anterior, porém nada comparada com está última, que dizimou e arrasou famílias, destruindo o que ao longo de gerações foram construídas. Pessoas que não acreditavam que a violência daquelas águas, que pareciam tão serenas e calmas, provocaria tamanha destruição. Fazendo daqueles que um dia se banharam, ainda criançinhas, em especial a dona Maria do Socorro, moradora da cidade de Branquinha há mais de 80 anos, crer que a fatalidade se tratava de um dilúvio e que desta vez o mundo chegaria ao fim. ?Eu implorei ao meu padim padre Cícero de Juazeiro uma segunda chance, para que eu pudesse viver apenas mais um pouco, graças a minha Nossa Senhora minhas preces foram atendidas?, desabafou dona Maria do Socorro. Mas o relato de se cortar coração ouvi em Correntes (199 km do Recife) do senhor Zé Carroceiro: ?Eu estava com dois filhos e dezenas pessoas em cima de uma laje. A água já estava meando as nossas canelas, estávamos apenas esperando a hora da morte, quando o meu filho chegou para mim e disse, ?pai nós vamos morrer? e eu lhe respondia sempre que não. Mas ele insistiu e eu chorando lhe disse, ?então meus filhos, vamos nos amarrar nesta corda e onde encontrar o corpo de um, encontrará o dos três??. Para um fim alegre, ele está vivo e me confidenciou este relato. E pouco a pouco as vidas nas cidades estão sendo restabelecidas, mesmo parecendo um canteiro de obras e os moradores ainda não morando nas casas que lhe foram destinadas. Muitos não têm para onde ir, outros não foram para a cidade de lona e estão mais uma vez nas margens do rio. (*) É jornalista e poeta popular de Alagoas.