Opinião
S�o Jo�o ignorado
É impossível o feriado de São João passar despercebido aqui no Nordeste. Uma festa democrática, cultural, onde a luz das fogueiras ou dos palcos ilumina e anima a multidão. Impossível neste ano, quem não pegou carona no feriadão e saiu da rotina. Há um ano, neste mesmo espaço relatei um pouco do drama que vivenciei junto daqueles que passaram um São João desigual, sem a luz das fogueiras, sem luz nas ruas e casas ? eram milhares de vítimas das enchentes em Alagoas e Pernambuco. Embora muitos neste ano já pegaram carona no folclore popular, outros passaram desapercebidos, porque depois de mais um São João continuam ignorados. Não sei se por esquecimento, omissão, ou a impressão que tudo está bem. Por onde passei neste feriadão vi decoração, luz, fumaça das fogueiras, mas diferente de dois anos atrás, não era na porta das casas ? humildes, mas firmes ? mas em frente a muitos barracos e barracas improvisadas. O São João desigual continua ignorado, passou despercebido daqueles que correram para o melhor arraial, preocupados com sua própria alegria. Parece natural esta situação, afinal o próprio São João Batista, como é conhecido na Bíblia, passou e ainda passa ignorado. Aquele que com uma fogueira foi anunciado, mais tarde anunciaria o fogo da ira de Deus aos que ignoravam e não percebiam a gravidade de seus pecados ? por ações e omissões. João pregou de maneira bem democrática: ?Arrependam-se dos seus pecados porque o Reino do Céu está perto? (Mateus 3.2). ?Ninhada de cobras venenosas! Quem disse que vocês escaparão do terrível castigo que Deus vai mandar?? Fariseus e religiosos de aparência precisaram ouvir o que todos devem ouvir: ?Façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram dos seus pecados? (3.8). João foi ignorado, odiado, perseguido. Acabou decapitado, em meio a outro arraial. Num palco armado especialmente para este show. João se foi, mas sua mensagem permanece agitando multidões, de maneira bem democrática, mostrando a importância de pegarmos carona nela. Sua missão não visava um discurso de revolucionário ou oposição, antes um chamado urgente para a salvação. Assim João representa e apresenta a Lei, aquele que veio preparar o caminho para o Evangelho (Isaías 57.14), Cristo representa uma nova oportunidade de perdão, de recomeçar ? afinal as brasas da Lei só são menores do que a chama do amor e perdão de Jesus. Aqui está o combustível certo para ainda voltarmos nossos olhos para o alto e imediatamente para o lado. Ainda é tempo de pegarmos carona nesta mensagem e deixarmos nosso peito queimar de alegria (Lucas 24.32), por sabermos que nem tudo está perdido, e que este ainda é tempo de sair da rotina. (*) É teólogo e pastor da Igreja Luterana.