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Opinião

Um infante refazedor de tempos

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Conhecíamos-nos há pouco, todavia logo nos uniu mútua respeitabilidade.Costumou Fernando Lopes designar-me ?Marulheiro?, numa clara e gentil admiração por meu ensaio sobre a vida e a obra de seu querido amigo Aurélio Buarque de Holanda; o Aurélio que lhe louvara a arte tanto quanto Di Cavalcanti, Jorge Amado, Lêdo Ivo, Francisco Brennand, Clarival do Prado Valladares, Carlos Oswald, Roberto Pontual, Flávio de Aquino ou Walmir Ayala. Dirceu Lindoso, numa sua inusitada como que bricolagem interpretativa cuja inspiração nascera notoriamente de uma conferência proferida por Gilberto Freyre em 1940, não deixou de inclui-lo entre os legítimos alagoanos representantes dum etos do qual Fernando se quis cúmplice na invenção, em muito de si devido a ?cuidado quase de um Piero Della Francesca pelo trabalho de minúcia artesanal?. Se Fernando, porém, professou geometria, decodificou as partituras de sua majestade o piano e obteve o grau de hermeneuta natimorto, não seria ele um racional radical na sua erudição pictórica. Embora sabedor do volume e da perspectiva dos quatrocentos renascentistas, esteve-se mesmo submergido intimamente no sabor de suas revivescências. Ainda que já baqueado derradeiramente por uma introspecção cuja melancolia de quando em vez o tragava a um alheamento, Fernando não se tornara aquele quase cego tratadista italiano que pelo crepúsculo fora Francesca, a cuidar, à decrepitude, de justificações matemáticas para as suas telas em prospectiva. Noite dessas, jantáramos Mayra e eu em sua companhia e do casal de amigos Fernando Gomes e Emília Clark. Entre taças de rosé, descobri-lhe então um leitor apaixonado por Marcel Proust. Éramos dois. Destarte, o mais desconcertante no portento experimental de sua plástica é que, ante o sortido da paleta, seus pincéis denunciam um olhar ingênuo de infante ascendentemente hispânico:uma ânsia por raízes e por tempos que se conjugam, complexos e perplexos,na tessitura de um futuro do pretérito. Se nele, sim, havia a brusca busca de todos nós pela intemporalidade, esta é resultante da técnica, mas também da eterna recordação perdida e sinestésica,porquanto suas paisagens e suas personagens, suas penumbras e suas pulsões, seus mitos e seus motivos se predam à monomania de catarse por fixação que transcenda a preocupação humanamente existencial com a transitoriedade da vida. Sob o sôfrego afã do menino que jamais faleceria dentro dele mesmo, Fernando fez-se feixe de fótons de flashbacks. E sua perda, sem meios-tons, é uma meia-luz na nossa outrora vital cultura.. (*) É antropólogo e sociólogo.

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