Opinião
O mist�rio da iniquidade
Séculos de acurados estudos bíblicos sempre se interrogaram: por que Judas traiu Jesus? Por que? Ele era um dos doze escolhidos pelo Mestre. Ele seria um dos enviados pelo mundo para anunciar Jesus. Ele, por cerca de três anos, ouviu dos lábios do Senhor sua doutrina de amor, de perdão e reconciliação. Viu com seus próprios olhos os milagres portentosos: Lázaro redivivo, os cegos curados, os leprosos curados, as pescas milagrosas, os pães multiplicados e tantos, tantos outros... Alguns tentaram explicar este mistério da iniquidade. Judas pensaria que no último momento Jesus se libertaria de seus algozes, como já fizera em Nazaré (Lc 4,30). Daí, seu desespero quando viu Jesus condenado, restituiu as moedas recebidas e foi enforcar-se (Mt 27, 3-10). Outros tentam explicar que ele esperava que Jesus criaria um reino terrestre poderoso, no qual naturalmente ele seria o ministro das finanças. Diante do fracasso desse projeto, desiludido, ele vai à procura dos sumos sacerdotes e lhes pergunta: ?O que me dareis se eu o entregar??. João descreve tristemente: depois que Jesus, na última ceia, deu o pão umedecido a Judas Iscariotes, filho de Simão, entrou nele Satanás e ele saiu imediatamente. ?Era noite? ? acentua o evangelista (Ver Jo 13, 18-30, Mt 26, 20-25). É a noite do mistério da iniquidade... Na minha vida, conheci um sacerdote, muito prendado, que, na crise conciliar, perdeu o entusiasmo de sua vocação, entrou em desespero, declarando-se um depravado e desejando morrer em violento acidente. Por fim, fez desventurado casamento com uma mulher que o enganou e, roubando tudo o que ele possuía, abandonou-o gravemente enfermo. Foram seus irmãos de Congregação que o assistiram no fim da vida, em estado de total miséria. Outro conheci que era grande orador e poeta bissexto, tendo sido diretor em três colégios. Já na velhice, casou-se com uma antiga conhecida. Numa sessão literária, sem ser percebido, ouvi este comentário sarcástico: ?Padre Fulano casou Cicrano, batizou seus filhos, fez seu enterro e casou com a viúva?. No fim da vida, bem enfermo, temia pela sua salvação eterna e um vigário, seu irmão de Congregação, procurava consolá-lo na confiança da infinita misericórdia de Deus. O caso mais triste que conheci foi de um quase colega meu. Depois de ter sido superior religioso por quinze anos, julgou-se injustiçado, perseguido pelos superiores, abandonou tudo e casou-se. Mas.com triste acidez, escrevia em carta a um seu amigo: ?A mim, só me resta uma coisa: odiar!?. Teve morte prematura, privado da visão. Temível poder da liberdade humana, que nos possibilita a escolha do mal para nossa própria infelicidade e triste auto-destruição. É o mistério da iniquidade. (*) É arcebispo emérito de Maceió.