Opinião
H�lio e a chuva
O poeta João Cabral do Melo Neto, como bom nordestino, trazia na magreza de suas carnes a secura dos sertões de suas muitas vidas severinas. A chuva era uma de suas obsessões. No poema Chuvas do Recife ele escreve:? No Recife, se a chuva chove,/a chuva é a desculpa mais nobre/para não se ir, não se fazer.? Já Verlaine, lamentava que ?Chove em meu coração/como chove lá fora/ e a lassitude invade todo o meu ser?. E Ribeiro Couto afirmava que a chuva traz melancolia ao coração. Cada um reage de uma forma pessoal ao fenômeno climático. Hélio Medeiros sempre teve com ela uma relação especial. Para ele, a chuva era o mote para que menino escapasse da vigilância do pai na loja de comércio para bater bola nos campos encharcados da Avenida da Paz, onde se destacava como um Ayrton Sena das canchas molhadas e fazia muitos gols de placa, que quase o tiraram de uma consagrada carreira na Medicina, não fora o diligente genitor a lhe barrar as pretensões à craque da província. Ultrapassada a fase de fervor futebolístico, ingressou na Faculdade de Medicina,para onde carreou toda a sua energia furtada dos campos futebolísticos,fazendo parte da primeira turma de médicos formados quando esta venerável faculdade passou a ser componente da UFAL. Fez especialização em cirurgia e proctologia no sudeste do País e de volta a Maceió, junto com o dr. Euclides Ferreira, assumiu a enfermaria de cirurgia para indigentes da Irmã Inocência, na Santa Casa de Misericórdia de Maceió, onde por longos anos tratou e operou incontáveis pacientes, a grande maioria, indigentes, hoje inexistentes, substituídos pelo SUS. Convivi com o Hélio cerca de 35 anos no hospital e também na Academia Alagoana de Medicina. Fui testemunha de sua competência profissional e de sua correta conduta como médico preocupado com o atendimento aos mais humildes. Na última vez em que estivemos juntos foi no recente Congresso Médico da Santa Casa, onde já muito doente e com muitas dores decorrentes de um câncer disseminado, não se furtou à responsabilidade e presidiu importante Mesa Redonda, para a qual tinha convidado celebrado mestre de São Paulo. Hélio era um craque como cirurgião e como ser humano. Tinha uma relação íntima com a chuva, que o fazia telefonar constantemente para sua fazenda para saber se ela lá chegara ou se passara ao longe, deixando plantas e animais sedentos Seu corpo ao baixar à sepultura esta semana foi ungido por generosa chuva, como a despedida de uma amiga íntima que nunca o deixou. Deixa saudades. Descanse em paz. (*) É médico.