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Opinião

O aparente paradoxo do tempo

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O tempo se tornou o inimigo número 1 da sociedade atual. Ele parece cada vez mais curto para o exercício das diferentes atividades: trabalho, família, religião. E quanto mais tempo, mais compromissos, e maior a sensação de que ele é pouco demais para as nossas realizações pessoais. E quando falamos em realizações pessoais, o tempo parece correr contra nós. À medida que os anos vão passando, concretizamos sonhos, mas paripasso com eles, nasce a sensação de que os dias passam roubando a nossa vitalidade e aquilo que conquistamos. Eis, então, o paradoxo: o tempo, nosso amigo, torna realidade projetos e desejos que eram ideias (o bom emprego, a família, as amizades, o grande amor), ao mesmo tempo, transforma-se em uma ameaça, em nosso inimigo, querendo levar consigo a nossa jovialidade e a capacidade de usufruir daquilo que temos e somos. Essa aparente contradição do tempo, fonte de ansiedade, acontece porque os anos, os meses, os dias, passam antes os nossos olhos revelando a nossa finitude e vulnerabilidade. Não somos senhores do tempo. Não somos a medida do próprio tempo. Se olhamos o tempo como um ciclo repetitivo de ganhos e perdas, estamos, de fato, condenados ao fatalismo. Por outro lado, se compreendermos e experimentarmos o tempo como graça, como manifestação da sabedoria divina, ele se torna um escola de maturidade, de crescimento, uma oportunidade de viver enchendo de infinito a nossa finitude. As Sagradas Escrituras nos dizem que para cada realidade há um tempo, um momento, debaixo do céu. Tempo para amar e odiar, tempo para guerra e tempo para paz, entre outros exemplos (cf. Ecl 3, 1-8). O que significa isso? O tempo tem um ritmo próprio, segue um projeto maior, divino, exige paciência, prudência, capacidade de reflexão, propiciando-nos a capacidade de receber os bens e os amores como graça de Deus. E se estas coisas são graça, mesmo que elas deixem de existir ou partam, deixarão os seus frutos em cada um de nós. O tempo, portanto, não nos tira nada. Pelo contrário. A vida de cada homem e mulher, com o passar dos dias, não fica marcada pela jovialidade roubada, mas torna-se sinal de uma história depurada pela graça de Deus, cheia cheia dos frutos da sabedoria que vem do alto, e que somente o tempo propicia. Quem experimenta o tempo como graça, descobriu a arte de celebrara a vida. (*) É diácono.

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