Opinião
Meninos no crime
Durante plantão na Central de Polícia, conheci um menino de 14 anos de idade e aparência que sugeria ser mais novo, apresentado por policiais militares que o conduziam apreendido pela prática de assalto à mão armada, evento em que subtraíra a moto de sua vítima. Apesar da pouca idade, o menino já apresentava currículo delinquente capaz de fazer inveja a muito marmanjo, saíra da região Norte do País ameaçado de morte por grupo criminoso e por isso recebera a proteção de programa federal, que o enviara para Alagoas. Nos festejos de carnaval deste ano em Marechal Deodoro, um atirador, armado com revólver, fez seis disparos no meio da multidão que se divertia no corredor da folia, ferindo seis pessoas. Depois de alguns dias, o autor dos disparos é apresentado na delegacia acompanhado da mãe e sob forte escolta policial formada por integrantes do Batalhão de Radiopatrulha. Quem era o protegido? O mesmo garoto da moto que continuou a receber a proteção governamental. Na mesma terra do Marechal, um menino de 15 anos se apresenta como grande líder no tráfico de drogas local, posição conseguida na base da bala, pois é assim como trata a concorrência. Ousado, conquistou a mulher de perigoso traficante preso no sistema penitenciário, atitude que pode lhe custar a vida, pois transgrediu cláusula pétrea do código de conduta bandida. Outro dia, aparece uma criança chorosa na Central de Polícia, ferida no braço por disparo de arma de fogo, apresentada como um dos assaltantes que tentaram roubar mercadinho no bairro do Reginaldo. Com 11 anos de idade e aparência de mais novo, agarrado na saia da avó (os pais foram assassinados), Toninho (vulgo fictício) se envolvera em homicídios, assaltos e se tornara importante quadro no tráfico de drogas da comunidade onde sobrevive. As meninas não ficam de fora, muito utilizadas na prostituição e tráfico, onde se tornam mulas para transporte de drogas, principalmente para presídios. Conheci uma delas, moradora da beira da Lagoa Mundaú, 16 anos de idade e mãe de duas filhas, devoradora de crack com nível de dependência que provoca cólica quando vê uma pedra da droga; esteve na Central de Polícia para reclamar que fizera quatro programas sexuais naquela noite e não recebera nada em dinheiro de seus inescrupulosos clientes, dos quais não se lembrava de nenhum indicativo de identificação, para exigir da polícia a cobrança. Saiu decepcionada e voltara às ruas para, certamente, fazer o quinto programa e consumir mais umas pedrinhas de crack. Das instituições do Estado, esses meninos e meninas só conhecem a polícia, a unidade de internação e, com brevidade cada vez maior, o instituto médico legal. (*) É delegado de Polícia Civil ([email protected]).