Opinião
Eis que o Semeador saiu a semear
Nestes domingos, quem for à Santa Missa escutará as sete parábolas do Reino, no capítulo 13 de São Mateus, que Mateus começa assim: ?Naquele dia, saindo Jesus de casa, sentou-se junto ao mar. Em torno dele reuniu-se uma grande multidão. Por isso, entrou num barco e sentou-se, enquanto a multidão estava em pé na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas?. Observe bem a doçura desta introdução. Jesus está em Cafarnaum, ao que tudo indica na casa de André e de Pedro. Saindo de casa, ele vai à beira-mar e senta-se na praia... Imagine o Salvador tranquilamente sentado, contemplando o mar e o balanço da água, observando, pensativo, o vai e vem dos barcos de pesca, fitando as montanhas do outro lado do mar... Em que se ocupavam seus pensamentos? Qual era a sede do seu coração naquele dia? Sem que ele percebesse, as pessoas vão se aproximando, vão cercando-o, sedentas da Palavra de Deus, mais que de pão... Querem ouvir o Senhor, pois de seus lábios saem palavras com lampejos de infinito, com traços de Deus, que enchem o coração de paz, fazem quase que adivinhar o coração do Pai do céu... Agora já é tanta gente... Jesus levanta-se, entra num barco, e pede que o empurrem um pouco, três, quatro metros talvez... Que cena tão bela: ele sentado no barco e a multidão sentada ? alguns em pé ? escutando na praia... E o vento que vinha do mar trazia, com a aragem fria, as palavras do moço de Nazaré... E Jesus sentado, como um Mestre, na barca imagem da Igreja, contando-nos os segredos do Reino! ?Eis que o semeador saiu a semear?... O Reino dos Céus é como o semeador que saiu a semear a semente, isto é, a palavra do Reino... Este semeador é o próprio Jesus e todo aquele que na Igreja continua a sua obra, jogando a semente no campo dos corações... Esse Reino é vivo, fecundo como uma semente: pode crescer, pode abrigar as aves do céu, pode aconchegar toda a humanidade. Mas (que escândalo!), o Reino é ao mesmo tempo frágil, quase que impotente, pois depende de mim, de você: eu posso ser leviano e deixar que as aves de tantas futilidades devorem as sementes do Reino; posso ser raso, superficial e sem profundidade interior, a ponto de queimar a vida do Reino que foi jogada no meu coração; posso ser tão apegado a tantas coisas que sufoco o Reino ? aquele Reino que Jesus disse estar dentro de nós e no meio de nós... Posso, por fim, ter um coração que escuta, que acolhe e deixa germinar o Reino porque deixa Deus reinar de verdade na minha vida... E, então, a semente do Reino dará fruto em mim, o Reino de verdade acontecerá, e poderá dar trinta, sessenta, cem por um, dependendo da minha disponibilidade para acolhê-lo e fazer germinar. Em Paulo de Tarso, em Agostinho de Hipona, em Bento de Núrcia, em Bernardo de Claraval, em Teresa d?Ávila, em Madre Teresa, em João Paulo 2º deu cem por um... Em outros dará sessenta, trinta... Em mim, quanto dará? Uma coisa é certa ? e é escandalosa, surpreendente: o Reino não acontecerá em mim se eu não me abrir para ele; eu não entrarei no Reino se não permitir que o Reino entre e frutifique no meu coração! (*) É bispo auxiliar de Aracaju-SE.