Opinião
O amor de Eros e Psique
Não houve amor como o de Eros e Psique. Ele foi eternizado na poesia de Fernando Pessoa e na belíssima escultura de Antonio Canova, Psique reanimada pelo beijo do amor, que está no Louvre. A lenda, narrada por Apuleio, conta que, de tão bela, Psique despertou a ira de Vênus ? Afrodite, para os gregos. Ela mandou que seu filho, Eros (ou Cupido), flechasse o coração de Psique, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais vil na terra ? triste sina das mulheres belas. Mas Eros apaixonou-se por Psique. Ele a levou para um belo palácio, onde somente a encontrava na mais absoluta escuridão. A única condição era a de que não se vissem; somente assim ele a preservaria da ira de sua mãe. Mas a inveja feminina é inexcedível e as irmãs de Psique invejaram-na ao verem a opulência de sua vida. Convenceram-na a observá-lo durante o sono. Movida por uma curiosidade que deixaria Barbazul com as barbas de molho, lá está Psique, com uma lamparina na mão, estupefata diante da beleza de Eros, a ponto de deixar cair uma gota de óleo sobre ele, que ficou ressentido pela promessa quebrada e se foi. Para resgatar o amor de Eros, Psique precisará da aprovação de Vênus, sua sogra, e por ela enfrentará várias provações, inclusive descer ao inferno (Hades) para furtar a caixa da beleza de Perséfone e entregá-la à megera. De posse da caixa, porém, Psique imagina: como posso me apresentar tão feia e cansada ao meu amado! E resolve abri-la. Mas a beleza escondida na caixa tem por preço uma alegoria da morte: Psique é acometida de um sono eterno, donde só será resgatada pelo beijo de Cupido, retratado na escultura Canova. Um beijo de fazer corar Branca de Neve e a Bela Adormecida, se já tivessem nascido. Psique quer dizer tanto alma quanto borboleta. A borboleta, depois de uma vida rastejante, ao sair do casulo torna-se bela e leve. É uma alegoria da alma se libertando do corpo. Com as asas abertas, a borboleta se assemelha a um cérebro humano. Se Psique é uma metáfora da mente humana, Eros é o órgão sexual, símbolo do desejo. Schopenhauer retratou o embate humano entre vontade e razão. A luta do Homem consiste em reprimir o desejo: racionalizando-o, jejuando, buscando o Nirvana... A história das religiões é a história da negação do desejo, do erotismo representado pela maçã. Eros e Psique não, eles retratam a vitória da vontade sobre a razão. Eros resgata Psique da morte, aonde ela chegou porque tentou racionalizar o amor, tentou decifrá-lo, acendendo uma lamparina para vê-lo, quando o que importava, de fato, era o que sentia. (*) É promotor de Justiça da Fazenda Pública da Capital.