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Opinião

O m�dico e o zumbi

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Destacado médico, desiludido com o serviço público, pede demissão do Estado abdicando de garantia salarial, aposentadoria, outros benefícios e se aventura na iniciativa privada, inicialmente como empregado e depois, ousado, monta o seu próprio negócio, um laboratório de patologia clínica. O negócio deu certo e para melhor atender à crescente demanda de clientes, resolvera construir arrojada estrutura na orla da Ponta Verde. Perfeccionista e exigente investiu em equipamentos modernos para a realização dos exames, contratou projeto arquitetônico, cuidou dos mínimos detalhes para a satisfação de seus clientes, que ali ingressam ao abrir de belas lâminas de vidros deslizando automaticamente diante da aproximação deles. Para proteger o valioso patrimônio, o médico instalou sistema de segurança com alarmes, câmeras, grades, cerca elétrica, vigilante no horário de funcionamento, monitoramento eletrônico de segurança e ainda dá um ?agrado? aos porteiros dos prédios vizinhos. Depois de uma longa jornada de trabalho, o médico vai jogar futebol com os amigos e depois volta para casa acreditando que iria ser recompensado com um sono demorado e profundo. Ledo engano. Na madrugada escura, um zumbi se encanta com a beleza do laboratório, se aproxima da porta de vidro que não se abre ao cliente indesejado e visualiza um televisor de LCD na recepção, pega uma enorme pedra e quebra o único obstáculo ao seu desejo. Arranca o televisor e sai. O telefone toca na casa do médico para lhe informar do sinistro. Pesadelo? Triste realidade. Com as imagens das câmeras de segurança fora possível localizar e identificar o zumbi, perto do meio-dia, dormia em sono profundo às margens da praia de Ponta Verde, abrigado embaixo de imponente embarcação. Havia trocado o televisor por pedras de crack. Acordado, mas ainda sob o efeito da droga, com cortes que denunciavam sua entrada criminosa no laboratório, arranjara força e lucidez para ameaçar o médico afirmando ser soropositivo para o HIV, condição que utiliza como arma nas relações conflituosas de seu dia a dia, e júbilo quando consegue contaminar uma desavisada parceira sexual. O médico foi golpeado pela emoção, desconsiderou a perda patrimonial e ofertou tratamento ao zumbi, que recusou. Teve sorte, encontrou um médico, mas poderia ter encontrado um monstro e assim entrar nas estatísticas de moradores de rua vítimas de violência. São Paulo e Rio de Janeiro já desenvolvem ações para a retirada de dependentes químicos das ruas para internação compulsória, evitando que eles vitimem e sejam vitimados. Espero que a assistência social do Estado e do Município resgatem o zumbi. (*) É delegado de Polícia Civil ([email protected]).

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