Opinião
A cultura e o verbo coisar
É possível que a abrangência da palavra cultura só seja menor que o verbo coisar. Qualquer distração o sujeito está coisando alguma coisa. Isto, quando não coisa de caso pensado. O fato que em algum momento o sujeito já coisou. Se não coisou foi coisado. Mesmo assim para Émile Durkheim os ?fatos sociais são coisas?. Coisa que se aprende nas primeiras aulas de sociologia. Mesma coisa é a palavra cultura. Quem rejeita hoje tem medo, de no futuro, ser taxado de ignorante. É como a Jovem Guarda e a bossa nova, a primeira era a mais festejada e também a mais criticada. Só que nos tempos atuais o sujeito para discernir sobre o que é cultura ficou muito mais difícil. A palavra caiu na usança política dos interesses do faz de conta. Às vezes é o encanto da popularidade musical que arrasta a multidão ao delírio de um ritmo e um estribilho licencioso cantado como qualquer coisa... até forró. Esse forró reinventado que domina as quadrilhas escolas de samba para turista vê. O fato é que o produto final é sempre cultura. Na realidade é que nunca se estudou tanto este tema ? cultura como hoje. Descobriu-se, finalmente, que a nossa vida gira em torno da cultura que temos ou estamos adquirindo. A vitalidade do planeta depende de nossa cultura. As questões de natureza bélica, assim como a própria violência urbana são problemas culturais. Os temas mais em voga como homofobia, casamento gay ou legalização de drogas são um desafio cultural. Imagine que quando Moisés saiu do Egito, com todo aquele povo acostumado a cultura da idolatria a boi, carneiro, serpente e imagens passaram 40 anos no deserto, antes de ir a Terra Prometida, para que parte daquela população fosse dizimada. É claro que nos próximos 10 ou 20 anos estes temas tabus serão de somenos importância. Afinal quem se chocaria hoje, depois de 40 anos, com Leila Diniz na praia de biquíni, grávida? Mas vem a questão da cultura imaterial que é a que mais sofre prejuízo. A começar pelas rezadeiras, curandeiras e carpideiras, convertidas ao protestantismo que hoje permeia as pequenas povoações destes Brasis afora, assustadas com tantas possessões demoníacas televisivas. A cultura do medo atinge o inconsciente coletivo dos desavisados, que tentam solucionar o desemprego e a desassistência social, enquanto a cultura da corrupção se amoita. Por último é o invencionismo culinário que vem transformando os pratos mais conhecidos da cozinha brasileira em gororobas escalafobéticas, de nomes esquisitos, com sotaque francês. Imagine o leitor que outros países chegam a patentear seus pratos mais tradicionais, enquanto nós vendemos tapioca com goiabada. (*) É escritor.