Opinião
Compromisso e respeito
Se perguntarmos ao leitor a data do início das obras de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos, o famoso VLT, em nossa capital, temos quase a certeza de que não saberá responder. De um amigo a resposta foi: ?faz tanto tempo que nem me lembro mais?. Pois bem, se o relato que lhes vou passar não fosse escrito entre os anos 1950 e 1970, pelo historiador e acadêmico Félix Lima Júnior (1901-1986) e sim no momento atual, iriam pensar tratar-se de uma velada crítica. Valer-me-ei de seu livro Maceió de Outrora ? Volume 2 (obra póstuma) EDUFAL 2001 , organizado pela professora Rachel Rocha, para mostrar-lhes. Até os longínquos anos de 1914, Maceió era servida por transporte coletivo bem charmoso para a época. Eram bondes movidos por tração animal ou, mais precisamente, por burros. Atendiam aos bairros Mangabeiras, Trapiche da Barra, Farol, Levada, além do Circular e da linha Bebedouro à Pajuçara. Assumindo o governo em junho de 1912, Clodoaldo da Fonseca quis fazer valer um trato feito em 1893, entre a CATU (Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos), empresa privada que explorava o serviço e o major Gabino Besouro, então governador do Estado, para estender as linhas ao Pontal da Barra, Fernão Velho e Jacarecica. Alegaram os diretores da CATU que atenderiam ao pedido quando mudassem a tração por veículos elétricos. Para essa mudança, desenvolvimentista à época, a empresa fez importar dos Estados Unidos e da Europa mais de 2 mil toneladas de fios, materiais elétricos, postes, acessórios e quinze confortáveis veículos, que aqui aportaram entre maio e junho de 1913, trazidas pelo vapor Germanicus. ?Construída parte da linha, realizou-se a primeira experiência na noite de 29 de abril de 1914, entre Maceió e Pajuçara, com êxito...?. Lima Júnior ainda transcreve divulgação do Arquivo Público, em 12 de junho de 1914: ?Foi inaugurado, às 6 horas da manhã desse dia, o serviço de bondes elétricos de Maceió, cujos primeiros trilhos haviam sido assentados a 1º de julho do ano anterior?. Vejam, em menos de um ano estavam funcionando as linhas de Pajuçara, Levada, Poço e Martírios. Nós, um século depois, esquecidos do início e sem perspectiva da conclusão deste VLT, não sabemos nem quais bairros atenderá. Certamente não é falta de verba ou tecnologia, mas de compromisso e respeito para com aqueles que, sofregamente, arcando com os custos, mais precisam do transporte coletivo. E isso está se tornando banal. (*) É bacharel em Economia ([email protected])