Opinião
A ilus�o da autoajuda
Vivemos no tempo da autoajuda. Há uma vasta literatura no mercado dedicada a ensinar a conquistar o grande amor, a mantê-lo, assim como apimentá-lo com uma vida sexual até então reservada aos deuses... E não para por aí. Há maneiras de se evitar o sofrimento, dez formas de resolver isso, dez modos de ser feliz naquilo. São tantos os títulos que seria impossível enumerá-los aqui. Diante de tantas opções de ajuda, ressoa-nos a voz de Isaías: ?por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa?? (Is 55,2a). Estas palavras contundentes do profeta nos recordam a necessidade de empenharmos nossas forças na busca de uma felicidade, de fato, duradoura e plena. A felicidade verdadeira e perene é fruto de uma construção, tantas vezes dolorosa, e não resultado do seguimento de receitas prontas. Os manuais de auto-ajuda, em síntese rezam a mesma cantilena: ?você consegue?, ?você pode?, ?você nasceu para brilhar?... Desses clichês todos temos conhecimento. Mas basta olharmos para o nosso coração... E lá estão as lutas interiores entre o bem e o mal, entre a confiança e o sentimento de fracasso, entre a esperança e o desespero. Nenhuma fórmula, vindo de qualquer guru ou sábio resolve essas batalhas diárias... E essas lutas interiores se devem ao fato de que somos seres interiormente desagregados, necessitados de compreender qual o fio condutor da nossa própria história. Se queremos satisfação plena, devemos, como nos diz Isaías, gastar o nosso dinheiro, ou seja, nossas energias no trabalho diário do autoconhecimento. É preciso sintonizar as diversas dimensões do nosso ser entre si. Quase sempre paramos no caminho da vida, emperramos relações afetivas, vida profissional, simplesmente porque desconhecemos o movimento do nosso coração. Tratamos vida afetiva, psíquica e espiritual como realidade independentes. É preciso, portanto, reintegrar o que as labutas cotidianas, muitas vezes, desintegraram. E aqui nos permitam apontar um caminho. O mesmo profeta Isaías também afirma: ?inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida...? (Is 55 3a). A Palavra que vem do alto, a Palavra de Deus, revela-nos quem somos; não nos oferece um receituário a ser seguido. Diante dela, nada fica oculto, tudo se torna luz, tudo é verdadeiramente autoconhecimento. E nesta luz, reerguemo-nos sempre, alcançando a vida plena. Por que gastar dinheiro com engodos e ilusões? Ser feliz é um processo sofrido de escuta da Palavra, mas é uma felicidade que nada nesse mundo poderia comprá-la. (*) É diácono ([email protected]).