Opinião
A corrup��o e a atualidade de Am�s
No século 8 a.C, durante a prosperidade experimentada pelo Reino de Israel, o profeta Amós exerceu o seu ministério profético. Conhecido pela defesa da justiça, são dele as sentenças duras contra uma nação em decadência social, marcada pela corrupção daqueles que detinham o poder e deveriam agir com equidade, principalmente naquilo que dizia respeito à promoção do bem comum. Dentre as sentenças enunciadas por Amós, destaca-se a seguinte: ?não sabem agir com retidão (...) aqueles que amontoam opressão e rapina em seus palácios? (cf. Am 3,10). Palavras tão distantes no tempo; no entanto, tão atuais em sua mensagem. Pensemos no mal que assola o nosso país: a corrupção. Fiquemos somente no contexto do governo federal. Quantos escândalos, na Casa Civil, no Ministério dos Transportes, acusações no Ministério da Agricultura, e em tantos outros, os quais ainda ? é só questão de tempo - não temos conhecimento. O erário simplesmente passou à mão de uma casta corrupta praticante da rapinagem. E não esqueçamos a copa. Sim, a copa de 2014 e seus estádios. Não é certo sermos hexacampeões, mas, seguramente, sairemos do próximo campeonato mundial de futebol ainda mais lesados e pobres. Se a corrupção aqui nos trópicos já é algo escandaloso, ainda mais espantoso é outro fenômeno. A corrupção já não nos revolta mais. Ela simplesmente já faz parte do cotidiano, sobretudo nos últimos anos. E isso é perigoso. Enquanto nos conformamos, enquanto dizemos ?é assim mesmo, qual a novidade??, os gatunos de plantão se apropriam do que deveria promover a dignidade de muitos. A corrupção como algo usual nos faz experimentar o paradoxo dos idos de Amós. Se experimentamos já há algum tempo o crescimento econômico, este não gerou uma prosperidade ética. Pelo contrário, temos experimentado uma prosperidade héctica, depauperada e decadente quanto ao uso da máquina pública. A recuperação da vitalidade de uma sociedade tísica eticamente depende da conversão de seus dirigentes. Se não a conversão a uma divindade ou crença, a conversão à prática do bem, seguindo as orientações dadas por Amós: ?odiai o mal e praticai o bem, estabelecei o direito a porta? (cf. Am 5,15a). No tempo de Amós, um sacerdote da corte real chamado Amasias pediu para o profeta deixar Israel, dizendo-lhe que suas palavras eram vistas como conspiração e ninguém ali as suportavam mais (cf. Am 7, 10-12). Certamente, hoje, ele ouviria palavras semelhantes, caso decidisse vaticinar em Brasília. Os que detêm o poder, fazendo mau uso dele, não suportariam, de fato, as palavras do profeta. No entanto, queiramos ou não, Amós nos apresenta o diagnóstico e nos aponta a cura dessa praga nacional. Nada mais atual. (*)É diácono ([email protected])