Opinião
Vit�ria contra preconceitos
Durante palestra proferida numa escola de ensino médio discutiu-se preconceitos e a luta das mulheres por sua emancipação. Como algumas alunas manifestaram o desejo de estudar medicina referi que as mulheres já são a maioria nas faculdades e na vida profissional médica. Mas, como exemplos de preconceitos do passado, contei dois fatos: um da Grécia antiga e outro do Brasil, no século passado. Transcrevo o texto da Grécia: ?Agnódice, que viveu na Grécia antiga, tinha o forte desejo de ser médica. Acontece que o exercício da Medicina, naquela época, era terminantemente proibido para as mulheres. O que fez então Agnódice para concretizar seu sonho? Viajou a Roma, onde estudou, obtendo conhecimentos básicos de ginecologia e obstetrícia. Como colocar em prática em seu país os conhecimentos adquiridos sem ser punida? A solução foi radical: Agnódice voltou à Grécia travestida de homem e sentiu-se segura desta forma para exercer a medicina. Sua competência logo atraiu inúmeras clientes, despertando ciúme em outros médicos. Raivosos com Agnódice e acreditando que ela realmente fosse homem, eles a acusaram falsamente de estar praticando atos eróticos com as pacientes. Levada ao tribunal, ela tentou se defender da falsa acusação, porém quando percebeu que seria condenada à morte, despiu-se, totalmente, diante do juiz e dos jurados. Imaginem a surpresa causada por essa atitude extrema. O juiz reconheceu a injustiça que estava sendo cometida contra Agnódice, livrou-a da acusação e promulgou uma lei determinando que, a partir daquele momento, as mulheres teriam o direito de praticar medicina na Grécia?. O outro fato: Nise da Silveira, famosa psiquiatra alagoana, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1921. Única mulher numa turma de 157 alunos. Era olhada com desdém, com hostilidade ou como objeto sexual. O relato: ?O professor de Parasitologia, fala ?É tempo de criarmos um serpentário na escola?. Em seguida, veio o funcionário trazendo uma cobra viva presa num vidro. O mestre tirou-a da garrafa e estendeu-a à caloura Nise da Silveira, que olhava o animal com angústia e repulsa. Com 156 pares de olhos cravados nela, todos prontos para soltar o riso ao menor vacilo, Nise segurou a cobra durante um minuto inteiro. Então virou-se para o colega ao lado e, controlando a voz, disse: ?É a sua vez?. O estudante recusou segurar o réptil, provocando risos?. As primeiras médicas formadas no Brasil foram Rita Lobato e Ermelinda Vasconcelos, diplomadas em 1888. Venceram preconceitos, fizeram história. (*) É médico e ex-secretário de Educação e e de Saúde.