Opinião
Os pais de ontem, os pais de hoje
Na história da humanidade, ao homem coube ser o caçador primitivo, o adorador dos deuses, o patriarca medievo, o macho de todos os tempos. Hoje esse homem enfrentou muitas transformações. Os tempos são outros e trouxeram a exigência de que é preciso rever o papel do homem na sociedade pós-moderna, principalmente no que tange a sua função e representação no seio familiar. Para tanto, precisamos revisitar os acontecimentos históricos. Nas eras mais primitivas, por necessidade de sobrevivência, ele tornou-se caçador. E teve que dominar a natureza. Por isso, inventar e recriar seus espaços. No Velho Testamento ele foi contemplado como a imagem e semelhança de Deus. Nesse cenário, o rei Davi fez-se legítimo exemplo desse antropomorfismo, tendo, mais tarde, que enfrentar seu próprio filho Absalão numa guerra iniciada em nome da acumulação, a exemplo da de Caim e Abel. Era a construção do proto-pai, o pai primevo que dá origem à Lei e não se submete a ela, o dominante, o castrador. Sob a sua determinação fálica, o homem-pai tornou-se o totêmico e edipiano guerreiro dominador que codificou, convencionou e, sob o manto desse mandonismo, tornou-se o pai-herói, o imperador tirano, o Papa, o ditador, escravizando tudo e todos, até tornar-se o lobo do próprio homem. Ao longo dos séculos e milênios, construiu-se uma história de sangue, corrupção e poder. É quando Nietzschie anuncia sua morte e faz com que o poeta russo Maiakóvsky sugira: ?Que o pai, seja pelo menos o universo...?. Por causa disso, o frei Leonardo Boff assinala que ?O eclipse da figura do pai, entretanto, desestabilizou a família tradicional. [...] A falta da figura do pai desestrutura os filhos/filhas, tira-lhes o rumo da vida e debilita-lhes a vontade de assumir um projeto consistente de vida. Precisamos trazer de volta o pai?. Era chegada a hora do surgimento de um novo homem-pai. A construção de exigência desse novo homem se deu com a ascensão da democracia e do feminismo, esboçada pelos movimentos de liberdade e de igualdade: um homem capaz de conciliar sua natureza com seu papel social. Ou seja: não apenas o homem reprodutor, procriador, mero participante da descendência, ou o simples responsável pelo pendão que sustenta o nome da família. Não. Mas um homem que se encontre cônscio de seu tempo com o exercício da paternidade na participação do ambiente sócio-afetivo familiar, pautado na afetividade, na delicadeza, na solidariedade. Um homem que tenha a consciência de coadjuvante do lastro familiar, com seu exemplo reto e responsável para que possa cumprir sua missão, ao lado como companheiro, como parceiro de uma relação horizontal e inclusiva com todos os integrantes da família e da sociedade. Esse é o pai que almejamos, resgatando a memória e a figura presente daqueles que, como os nossos pais, souberam conduzir sabiamente a dele e a nossa vida. É esse o homem-pai que esperamos para a criação dos nossos filhos e condução da vida democrática na construção de um mundo melhor. (*) É psicóloga.