Opinião
Domin� (A Pedro, meu doutor)
Ela sempre via os irmãos jogarem dominó em encontros alegres; horizontais e negras, as peças se encaixavam, exibindo uma imagem organizada. Depois,viu exibições na TV, algo meio circense, de dominós na vertical, fragilmente assentados uns nos outros, e um gradativo despencar que provocava susto e risos... Mas não sorriam aquelas mulheres (tantas, de todas as idades e faces diversas) da sala de espera do médico. Eram como dominós oblíquos,em susto de queda possível. Sentiu-se assim,de repente. De repente? Depois da primeira consulta, entrara trêmula no consultório do médico, já antevendo a sentença. Elegante e sério, sem sisudez,inspirou-lhe confiança imediata. Dos cirurgiões,desejava apenas competência,algo que tirasse as minas de medo do caminho a trilhar. Olhos e mãos seguras,ela o anteviu explorando as minas explosivas de seu corpo e retirando-as,com a determinação dos que sabem onde pisam. Estava se sentindo provisoriamente salva, apesar de perceber nas vozes pausadas e contidas dos especialistas que ninguém lhe poderia proporcionar a certeza ,a inatingível certeza da cura. Um ponto além do próprio horizonte que todos miravam. Soube da notícia da morte da senhora de 83 anos e se sentiu morrer um pouco. Estranho; pouco a conhecia, pois conversaram apenas uma vez, de forma oblíqua, em meio a um papo ameno na sala de espera. Ambas clientes de um oncologista; ou, traduzindo, de um médico de câncer. Palavra feia e pouco poética. A mulher sem cabelos, com um lenço longo e elegante cobrindo a calvície que dilacera a vaidade feminina, parecia à jovem cliente um exemplo de vitalidade. Acho que pensou ? só acho-a história é dela ? que estaria a salvo da morte que ronda a doença se uma senhora de 83 anos, cheia de rusgas e risos,ainda bramia palavras e projetos próprios. Com gestos largos, passo forte,ela ressurgira de uma cirurgia para retirar o tumor... Neoplásico. Longa luta,que não afetou sua vivacidade. Ela,então,doente neófita, se sentiu mais forte absorvendo estranhamente a seiva dela,parte de sua poção mágica de sobreviver ao caos.Gostava de ouvir as sobreviventes. Mas soube, casualmente, que a mulher morrera; assim, como quem anuncia um fato corriqueiro, um parente próximo lhe deu a notícia assustadora. E, passado o choque, sentiu-se um dominó em caminhada oblíqua para o chão, empurrada pelos outros. De alguma forma, ela se alimentara nas longas noites dos medos que vêm sem pedir licença, da força dos que sobreviviam daquela sala de espera. Cheia de mulheres com seios feridos pelo inesperado. Em contraponto com a loquacidade da velha senhora, havia uma bela mulher loura de nome Inalda, ou Imelda, que se operava pela segunda vez.O susto voltara. E, sempre linda,aguardava a vez de entrar... Todas as mulheres na sala lhe pareciam agora, vistas no tempo,estranhos dominós eretos,seguros por uma força própria e provisória, invisível para os outros fora do tabuleiro. E se uma caía, como não se sentir o próximo dominó, em uma caminhada descendente? Olhou o próprio corpo e se sentiu estranhamente oblíqua, como se uma força de gravidade inesperada a puxasse para baixo. Lembrou novamente a mulher de oitenta; sobrevivente a um casamento arruinado, contava coisas suas sempre registrando que era ela ? sempre ela- quem segurava as rédeas da vida ou de um negócio do ex-marido que tocava, por talento seu e condescendência dele. E ? nos intervalos da loquacidade ? adocicava-se e lembrava à sobrinha que lhe trouxera coisas do interior. Inhame,macaxeira,não lembro. Mas ela caíra feito dominó da última carreira. A doente neófita me contou tudo isso com um sorriso amarelo no rosto assustado; não gostava de dar más notícias.Coisa dela. Mas levantou de repente e tentou tocar a vida que lhe coubera, afetada por uma verticalidade provisória, prenúncio de queda. E até às vezes se esquecia da sala de espera,onde esperanças e medos se cruzavam em estranho jogo. Jantava com amigos,escrevia crônicas ou poesias,ligava para os filhos queridos e distantes. (*) É professora.