loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Pedra que mata

Ouvir
Compartilhar

Estudos indicam que o crack, subproduto da fabricação de cocaína, surgiu na década de 80, nos Estados Unidos, como uma alternativa para os traficantes do pó ao rigoroso controle das forças policiais americanas aos compostos químicos usados em sua fabricação. Como se tratava de sobra do refino da cocaína, a pedra de crack fora para o mercado com preço bem mais barato e logo passara a ser a droga preferida das classes mais pobres. A cocaína continuava a ser distribuída por grandes grupos criminosos organizados e consumida por gente de dinheiro, principalmente os famosos yuppies, jovens executivos do mercado financeiro. O crack, a sobra, passou a ser distribuído de forma muito capilarizada, dificultando o controle dos chefões do tráfico. Sem o rígido controle gerencial, os conflitos na comercialização foram crescendo e sendo resolvidos na bala, resultando no crescimento expressivo de homicídios. Os estudiosos logo identificaram essa infeliz relação uso do crack e homicídios, demanda que merecera atenção especial dos gestores policiais americanos, contribuindo para o surgimento do programa de governo tolerância zero, referência mundial para o tratamento do fenômeno da violência urbana. Na década de 90 o crack chegara ao Brasil, com mais expressão em São Paulo e a violência urbana se comportara de forma bastante assemelhada ao que ocorrera em Nova York. Identificada a semelhança, os gestores paulistas recorreram aos colegas americanos e adotaram as mesmas estratégias, mas ainda com muita tolerância ao comportamento marginal, conseguiram reduzir o número de homicídios a índices inferiores a 10 por 100 mil habitantes. Significa dizer que se mata 10 vezes menos que em Alagoas. Minas Gerais experimentara situações bastante assemelhadas às que ocorreram com São Paulo e reagira com eficiência de mesmo nível, como bem demonstram Luiz Flávio Sapori e Regina Medeiros, autores da obra Crack ? Um Desafio Social, leitura obrigatória para os gestores policiais. No início dos anos 2000, na titularidade da Delegacia de Repressão às Drogas, pude registrar as primeiras apreensões de pequenas pedras de crack em Alagoas, insignificantes em relação às de maconha, acompanhadas de pequenos cachimbos para fumá-las - as maricas. Como em Nova Iorque, São Paulo e Belo Horizonte, o crack se disseminara nas classes sociais mais baixas e obedecendo as mesmas estratégias de distribuição, pulverizada com pequenos traficantes. A partir daí o número de homicídios só cresceu.A comercialização do crack estabelece quadro de violência sistêmica, onde se mata por disputas territoriais, adulteração da droga, dívidas, colaboração com as polícias e até mesmo por outros conflitos sociais do cotidiano. (*) É delegado de Polícia Civil.

Relacionadas