Opinião
Ao mestre com carinho
Segundo filho, desde que nasceu sempre foi um menino magricelo, anoréxico, para se alimentar era um deus nos acuda. Além de que tinha alergia a quase tudo, a começar pelo próprio leite.O que obrigou a mãe a conseguir leite de cabra fresco nos cafundós do Judas. O irmão mais velho, também era magricela, mas tinha um mínimo de carnes a lhe cobrir as costelas. Ele era só pele e osso. O que fez o pai, desesperado, tomar uma medida radical: com receio até de que não se criassem, instituiu o regime de super-sopas diárias. Foi um período dramático: como à rejeição ao sopão foi total e absoluta, o pai fez das tripas coração e uma vez ao dia,trancava os dois magricelas na cozinha, pedia para a mãe sair ? já que ela não suportava assistir aquela tortura medieval --- e os obrigava a ingerir pelo menos um prato. A gritaria protestando era tamanha que as portas eram fechadas, para que os vizinhos não pensassem que ali se esfolavam seres humanos vivos. Logo o pai desistiu do sopão: confiou a sobrevivência dos magricelas à mãe e a Deus. Cresceram subindo na goiabeira e no jambeiro do jardim, jogando bola na garagem e praticando basquete no Sacramento, onde estudaram.Depois ganharam algum corpo. Inteligente, esforçado e estudioso, o magricela-mor, Marcel Davi passou no vestibular de Medicina da UFAL da primeira vez. Formou-se em 2005 e em seguida passou na residência médica de radioterapia do Hospital AC Camargo em São Paulo, sendo o segundo nordestino a conseguí-lo: o primeiro foi o Francisco Rodrigues de Fortaleza. A semana passada, o Marcel Davi defendeu sua tese de mestrado no Centro de Pós-graduação do Hospital AC Camargo em São Paulo, perante uma renomada banca, constituída por doutores representando instituições como a USP, o Icesp,a Faculdade de Medicina da Santa Casa de SP e a Fundação Antônio Prudente. Ao final de cinco horas, a banca entre outras considerações registrou o ineditismo do trabalho; o nível de doutorado apresentado; a consistência científica; a necessidade de publicá-lo em revista internacional do mais alto nível em oncologia. Registraram ainda que a família tinha feito o seu papel, entre outras razões por não deixa-lo perder tempo na vida com bobagens e um dos doutores, que ainda não conhecia o Marcel Davi, finalizou asseverando que se tivesse uma filha com câncer gostaria que fosse tratada por um profissional daquela qualificação. Em um canto do auditório, os pais, a esposa e a irmã,discretamente, tentavam controlar as lagrimas. Tudo valera apena. (*) É médico