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Opinião

Reconstruindo vidas

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Lá nos idos de 1975 perseguia-me uma ideia, eu diria um pensamento incessantemente repetido: escrever uma crônica domingueira sobre um tema médico contando as muitas experiências que a clínica me oferecia. Do pensamento ao fato. Procurei um jornal da cidade e expus ao redator-chefe, assim o chamavam, o desejo que acalentava e que me consumia os neurônios. Olhou-me com um certo desdém, perguntou sobre minha experiência anterior em jornal. Tema médico, não, não dá; tenho um espaço para uma crônica sobre política internacional. Fiquei de queixo caído, não sei se boquiaberto. Pois não. Era a passagem de um navio por um mar pouco conhecido. Mas, instantaneamente, lembrei-me de meu irmão Rui Medeiros, jornalista, que nessa época se encontrava no Irã, cobrindo para o Diário de Notícias (RJ) a chegada ao poder dos Aiatolás, sacerdotes xiitas, que ainda hoje dominam o país. Respondi ao redator que sim, aceitava a coluna. Era um desafio. Agora, a Líbia, o ditador Gaddafi, 42 anos de poder, derrubado por uma revolução que custou a vida de 42 mil militantes. Possivelmente, passa à história como um ditador brutal e implacável, seduzido por uma auréola de chefe supremo e absoluto. O patrimônio da família Gaddafi espalhado em investimentos e depósitos em bancos estrangeiros é calculado em 100 bilhões de dólares, o que em nada recomenda o ditador. Os protestos, iniciados em fevereiro de 2011, contra a mais antiga ditadura do mundo árabe, evoluíram nos últimos meses para uma guerra civil entre grupos governantes e rebeldes, com disputas armadas pelo domínio de territórios. A motivação para o inicio dos conflitos é, além da recente experiência de rebelião no Egito e Tunísia, a insatisfação de uma grande parcela da população líbia pouco favorecida pela ditadura de Muammar Gaddafi. A ditadura de Gaddafi existe desde o final de década de 1970, mas apesar de sempre ter havido dissidências, a mesma mantinha o controle popular, sufocando a pouca organização dos grupos dissidentes. Nos últimos meses, mais organizados e firmes pela determinação de capturar e punir Gaddafi, os rebeldes que reúnem homens de diversas tribos, recebeu um forte apoio da classe média local e de potências estrangeiras. Nas últimas semanas, mais de 500 pessoas morreram nos confrontos armados. Aos esforços de reconstrução segue a seguinte pergunta: as coisas serão de fato diferentes? A pergunta pode ainda não ter resposta, mas a esperança do povo líbio busca seu lugar de direito, na ânsia por liberdade. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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