Opinião
Pol�cia prende e solta
A Polícia Militar, força auxiliar do Exército, tem a missão de realizar o policiamento ostensivo objetivando a prevenção de crimes; a Polícia Civil, também chamada de polícia judiciária, o dever de investigar crimes e apontar à Justiça os seus autores e as circunstâncias que os levaram a praticá-los, atribuições que tornam bastante distintas as atividades do policial militar e do policial civil, principalmente do Delegado. Medir a eficiência na ação preventiva é navegar na subjetividade, enquanto que na investigação de crimes a eficiência ou insucesso está na elucidação ou não, e os consequentes desdobramentos na Justiça. Conceitualmente, poder-se-ia afirmar que se o crime acontece é porque houve falha na prevenção, mas isso não é observado pelos especialistas de segurança, o destaque é para a investigação. Como nesse país, todos entendem de futebol e investigação, infelizes são os treinadores e investigadores. A Central de Polícia Civil recebe 90% de suas demandas, ou mais, originadas por ações de policiais militares que se apresentam como condutores de supostos criminosos em situações de flagrante, mais das vezes já apresentados em coletivas com os diversos segmentos da mídia. As apresentações seguem roteiro uniforme: criminosos diante dos produtos de crimes ? armas, munições, drogas, dinheiro, objetos furtados/roubados e, evidentemente, logomarcas das unidades policiais dispostas em boinas, coletes, ou desenhadas com um grande número de munições apreendidas. Após a performance midiática, seguem para a lavratura do auto de prisão em flagrante, mas as manchetes já estão nos jornais eletrônicos: ?PM prende suspeito de homicídio?, ?PM prende quadrilha acusada de vários assaltos a ônibus em Maceió? e outras tantas. Não faz muito tempo, policiais militares apresentaram quatro pessoas suspeitas de terem praticado mais de 50 assaltos a ônibus em Maceió, resultado de quatro meses de trabalho de inteligência, tempo suficiente para que as investigações pudessem ser documentadas em inquérito policial e obtenção de mandados judiciais determinando as prisões dos criminosos, já flagrados em imagens de câmeras de segurança instaladas nos coletivos. O Delegado plantonista recebeu a demanda e não encontrou nenhuma circunstância autorizadora (arma, droga, produto roubado) para a lavratura do auto de prisão em flagrante delito dos criminosos que lhe foram apresentados, interrogou e em seguida liberou todos. Uma polícia prende e outra solta. Incidente na segurança, alguém tem que ser culpado, mas a culpa está num sistema que não consegue integrar as ações policiais. E não é só aqui, em Pernambuco policial federal foi morto por policiais civis durante investigação de tráfico de entorpecentes desenvolvida pelas duas instituições, fato desconhecido pelos operacionais que estavam nas ruas. (*) É delegado de Polícia Civil.