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Paulo Gracindo: 100 anos

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Antes de o mais alagoano dos cariocas ser Paulo Gracindo(1911-1995), ele seria um garoto com nome de velho: Pelópidas. E este rapaz com prenome assim de general tebano tivera, edipianamente, de decifrar uma esfinge: o quadradismo de um pai de dois metros que não soubera lhe dar afago, e sim quilos de livros para tê-lo prosaico doutor com anel de rubi no dedo. A alma do artista não poderia por mais tempo, todavia, viver aprisionada no calabouço do próprio lar, sob a disciplina de um Golias de chapéu-chile e voz tonitruante. Ainda no amniótico do ventre materno, compareceu à peça de Arthur Azevedo e à do alagoano José Ângelo Vieira de Brito no nosso Teatro Deodoro: fora o batismo umbilical em sua vocação ubíqua de amante da fantasia, do longe, das miragens, dos abismos, das torrentes, desertos e vendavais. Um dia, descambara Pelópidas num trem para o Recife, onde escambou o conhecimento de parágrafos e incisos por champanhe e raparigas. Quando tornou ao cais de Maceió, não mais reconheceu o seu carrasco. O lente do Lyceu, tão descuidado da glicemia, às vias de morrer se adoçara de saudades do filho. A mão, tão cheirosa a Fanal, o abençoou. E o paletó branco, tão contrastante da tez achocolatada, sugeria um estandarte de paz. Na aparência, Paulo era guardião de traços viçosenses mais do avô, o temido coronel e político Epaminondas Hypolito Gracindo (1844-1911), que do pai, o intempestivo bacharel e também político Demócrito Brandão Gracindo (1884-1927). Do primeiro, herdou os pelos encrespados e enevoados, a cabeça um tanto arredondada e a pele menos acaboclada; do outro, não a morenice à braúna com que o povo maceioense o xilogravou ou o bronze de titã trigueiro requeimado pelo sol da Pajuçara com que Guedes de Miranda, num de seus devaneios helênicos, o esculpiu, mas as olheiras que mais se acentuavam quão mais maquiavelicamente se lhe obliquavam as sobrancelhas. Seu fenótipo lembrará uma mistura do quatrocentão Antenor de ?Os ossos do barão? (1973-4) com coronel Ramiro Bastos de ?Gabriela? (1975). Como quem ajuntara queijo e goiabada, num romeu-e-julieta de encarnações, Paulo inspirar-se-á na nobiliarquia de barões tal o de Jaraguá, na caricatura de coronéis nordestinos, na retórica pletórica dos doutores bacharelescos quais seu próprio pai e o Guedes, no folclore político de populistas qual Sandoval Caju, como também em tresloucados, malandros, corruptos e canalhas para dar vida ao Tucão de ?Bandeira 2? (1971-2), a Odorico Paraguaçu em ?O bem-amado? (1973, 1980-4) ou àquele Quincas de ?A morte e a morte de Quincas Berro D?água? (1978). O personagem Primo Rico em ?Balança mas não cai? (1950-83) nasceria da figura de capitalista de seu sogro, Francisco Xavier de Araujo Filho, dono de mansão em pedra no Leblon. (Curioso seu pai haver tratado os amigos por ?Seu primo?...) Assunto de todo o atrevido a conhecer comunicação no Brasil, Gracindo se transformou, no rádio, teatro, cinema ou tevê, em ?um novo e fascinante tipo? no mundo antológico das representações, que era sua própria vida. (*) É sociólogo.

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