Opinião
Adeus ao amigo
Maceió dos anos sessenta era uma agradável cidadezinha. Para controlar os poucos veículos circulando, na esquina mais movimentada existia um guarda em cima de um tablado com um apito comandando o trânsito modorrento. Ele conhecia a maioria dos motoristas pelo nome e respondia aos cumprimentos sempre com um sorriso afável. Existiam bons colégios particulares, e colégios públicos de qualidade, como o Estadual e o Moreira e Silva. Os cinemas de bairro davam para o gasto, e o São Luis aos sábados exibia um concorrido cinema de arte. As praias eram despoluídas e nas proximidades do Salgadinho existia um movimentado point da juventude. Ali, paquerava-se e tomava-se banho de mar, sem maiores riscos. Perto dali a Fênix oferecia o melhor carnaval de clubes de Alagoas, que tinha concorrentes afiados no Iate e no Tênis. A Fênix além do extraordinário carnaval, tinha nos fins de semana descontraídas e platônicas tertúlias, onde o Sambrasa de Paulo Sá ponteava. No esporte, seus times de vôlei disputavam com o CRB quem era o melhor. Meu pai, esforçado comerciante oriundo de Palmeira dos índios, com esforço adquiriu um titulo da Fênix, somente para que o filho frequentasse o clube. Adolescente insignificante vislumbrei com admiração o maior responsável pela fase áurea da Fênix e dos carnavais de clube de Alagoas: o já então brilhante e vitorioso advogado Ardel Jucá. Depois de muitos anos, já formado, reencontrei-o fazendo Cooper na orla. Desde então fomos companheiros diários por ininterruptos 30 anos. Também nos cafés das sextas-feiras no Hotel Ponta Verde; nos almoços mensais; nas confraternizações de fim de ano, quando, por sua liderança, sua insuperável capacidade de agregação, sua bonomia, os companheiros flamenguistas cantavam conosco e sob seu comando o hino do Vasco da Gama, uma de suas paixões. Seu corpo ao descer ao túmulo, o homenageou emocionado o governador Teotonio Vilela, afirmando ter sido Ardel ?Um provedor de alegrias, um agregador incomparável que tinha sempre uma palavra para cada um, tanto nos bons momentos, como nos de grande dificuldade?. Logo depois um humilde popular, falando por muitos outros e premido pelas lágrimas, registrou a ajuda que criança, dele recebera junto com a família quando veio do interior totalmente desamparado. Ardel Jucá foi um exemplo de amigo de todas as horas, de pai de família agregador e generoso. Ovídio afirmava:? O tempo, esse devorador das coisas?. Sua cadeira dos cafés das sextas-feiras ficará para sempre vazia. Deixa imensas saudades. (*) É médico.