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Pessoas ou consumidores?

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Temos vivido, hoje em dia, homens, mulheres e até crianças, numa espécie de roda-viva de trabalha-consome-trabalha, que pouco nos damos conta do processo cíclico em que estamos envolvidos. Temos nos avaliado tanto pela vestimenta, carros e viagens que fazemos que nem nos damos conta de que não passamos da superfície em assuntos que exigem ir ao fundo. Um artigo de uma psiquiatra, que li outro dia, analisava se o consumismo desenfreado era causa ou consequência nesse processo que as sociedades modernas vivenciam. Para a especialista, o consumismo é consequência quando representa uma fuga para evitar encarar as necessidades internas. É também causa, quando os filhos já nascem e são educados para serem consumidores. O professor Luiz Fernando Conde faz uma observação reflexiva: ?As crianças brasileiras são alvo importante para o mercado publicitário. Mais vulneráveis que os adultos aos apelos consumistas, influenciam 80% das decisões de compra de uma família. A publicidade na TV é o principal instrumento de persuasão do público infantil, que passa quase cinco horas por dia assistindo à programação televisiva. A superexposição infantil aos apelos consumistas provoca graves consequências: obesidade, erotização precoce, consumo de tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade e da violência?. Se todos estivessem trabalhando suas dificuldades internas e, consequentemente, a relação com o outro com quem temos que conviver, curtindo a própria existência, sem necessitar de remendos, quem estaria consumindo as toneladas de cremes, bebidas, roupas e remédios que o mercado está, cada vez mais, disposto a oferecer? Um marketing cada vez mais aperfeiçoado envolve o lançamento de produtos com estratégias de convencimento. A opção de estar mais consigo e não consumindo para silenciar algo mostra uma espécie de densidade interior, posicionamento de quem não está disposto a pagar o preço do consumismo. As mulheres demonstram mais capacidade de cultivar uma reserva, uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem. Apesar de que, quando as mulheres estão fora desse padrão, tendem a consumir muito mais que eles. Como sempre, a saída parece estar na forma como educamos nossos filhos, apesar de que os apelos ao consumo estarão sempre em disputa com os pais. De qualquer forma, a lição ainda está em ensinar às crianças o valor das coisas e não seu preço. Enfim, como pessoas, que numa abordagem filosófica significam seres humanos a quem se atribuem racionalidade, consciência de si, discernimento de valores. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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