Opinião
O Cristo tabu
Na semana passada, a primeira-ministra australiana, Julia Gillard, pôs em marcha uma lei cuja finalidade é abolir o uso das expressões ?antes de Cristo (a.C)? e ?depois de Cristo (d.C)?. Em lugar delas seriam adotados os termos ?antes da era comum? (pasmem!) e ?era comum?. É uma proibição explícita da menção do nome de Cristo. A atual lei não é pioneira no quesito ataque à herança cristã presente no ocidente. Há pouco tempo, houve a questão em torno do uso dos crucifixos nas escolas italianas. Dessa guerra recente, cujo bombardeio agora vem lá da longínqua Austrália, podemos perceber a crise de identidade que acomete a cultura ocidental. Na sua obra, Totem e Tabu (1913), buscando explicar as origens do horror ao incesto e das experiências religiosas, Sigmund Freud, aponta-nos a figura paterna na ordem primeva dos grupos humanos. Cabia a ele manter a ordem, a moral. O pai era a encarnação da lei, dos tabus, garantindo a sobrevivência de todos. Sentindo a presença do pai como intolerável, e desejando gozar de tudo aquilo proibido pelo grande chefe, membros do grupo desejam e decidem matá-lo. A conseqüência é a desordem e a impossibilidade de viver uma vida sã e coerente em sociedade. Não demora muito e é eleito um substituto para o pai, um totem, uma entidade comum, seja um ancestral ou mesmo um deus que lhes garanta a sanidade perdida. Analogamente, o ocidente vive experiência semelhante. Quer a todo custo matar Cristo e o Cristianismo das consciências, pois Ele se tornou insuportável demais, uma ameaça à verdadeira liberdade. Ele sim, o Cristo, é que deve ser um tabu. E sejamos sinceros, que liberdade é esta incapaz de nos tornar melhores? Nunca se viu um mundo tão confuso em valores, exageradamente pragmático e imanentista. E como somos incapazes de sobreviver à essa desordem, elegemos os nossos totens na tentativa de restabelecer a paz. Alguns exemplos: na economia, acreditamos que a ascensão pura e simples dos países emergentes é a panaceia para os seus problemas. Na política, na América Latina, seguimos elegendo os populistas e ditadores ?brancos? de plantão. E na religião, qualquer guru ou ?chefe religioso? arrasta e explora uma multidão desprovida de referências religiosas, morais e éticas suficientes para sobreviver ao caos reinante. Referir-se a Cristo e às raízes cristãs no ocidente é questão, primeiramente, de honestidade intelectual e de sobrevivência cultural. Afinal, ?antes e depois de Cristo? é uma referência clara e sólida para nós e para as futuras gerações. Muito mais do que a vaga e insossa ?era comum? da primeira-ministra australiana. (*) É diácono e psicólogo ([email protected]).