Opinião
Relembrando Arnon de Mello
Por volta dos anos cinquenta, uma multidão se aglomerava na praça central da cidade de Delmiro Gouveia, esperando o trem que vinha de Piranhas. Aos oito anos de idade, segurando as mãos do meu pai, observava curioso aquela cena. O trem chega resfolegando, o maquinista toca o apito várias vezes, houve-se uma explosão de aplausos, muitos vivas! Um personagem todo de branco acena ao seu povo. Era o destemido Arnon Afonso Farias de Mello que, por todo o Estado, numa luta sem quartel, enfrentava bravamente uma oligarquia que teimava em não deixar o governo. Tempos depois vim morar em Maceió na Rua do Imperador, próximo a Praça Sinimbu, na casa do meu tio Deputado Renato Villar. Àquela época não existia a badalada Ponta Verde. Tudo acontecia em torno do centro da cidade. Passeando com meu tio na Praça dos Martírios, fiquei encantado com majestosa obra do arquiteto italiano Luiz Lucarini. ??Tio gostaria de um dia conhecer este belo Palácio?. Não recebi nem sim, nem não, mas um sorriso matreiro do ?tio Renato? me fez acalentar aquele sonho. Dias depois ele chega apressado em casa e diz ?toma banho, veste sua melhor roupa, hoje você realiza o sonho de conhecer o Palácio do Governo?. Ao adentrar àquele imponente edifício deparei-me com muita gente. Era a preparação da eleição da mesa da Assembleia Legislativa que se dava em Palácio face ao acirramento dos grupos em disputa. O governador ao avistar meu tio veio logo abraçá-lo. ??Deputado Renato, quem é este jovem??. ??Governador, é meu sobrinho. Ele tinha a curiosidade de conhecer o Palácio e teve a sorte de encontrar o senhor também?. O dr. Arnon me abraçou e do alto da sua experiência afirmou: ?Renato, acho que este Villarzinho vai ser político?. ? ?Não dr. Arnon, quero que ele seja um profissão liberal?. O governador abriu um largo sorriso e disse ?vamos ver?. Iniciadas as conversas para a escolha do candidato a presidente da casa de Tavares Bastos levou um tempinho e logo, logo, os dois grupos políticos se acertaram. Por não se chegar a um denominador comum, a grande disputa foi pela primeira secretaria. Aí aconteceu uma cena interessante. O dr. Arnon já impaciente bateu à mesa chamando o feito à ordem: ?Os senhores não se entendem, permitam-me dar uma sugestão. Todos pararam e a atenção se voltou para o governador. ??Porque os senhores não escolhem o deputado Renato Villar, homem culto, fiel correligionário, trabalhador, amigo?. Houve alguns resmungos. Mas o padrinho era forte. Anos depois o dr. Arnon já no segundo ou terceiro mandato de Senador, sempre, sempre, que me encontrava abria os braços, sorria e afirmava ?O deputado Rubens Villar vai longe.? Coordenador da campanha presidencial no Norte e Centro-Oeste do país, não é que o destino, pelas mãos do seu filho, o presidente Fernando Collor me fez (com eleição pelo Senado da República) governador do Estado de Roraima. No mesmo dia convidado pelo presidente Collor para almoçar no Palácio do Planalto, com as presenças do ministro Bernardo Cabral da Justiça, e do ministro Chefe do Gabinete Militar general Agenor Homem de Carvalho, confesso que me lembrei com carinho do lendário dr. Arnon de Mello. (*) É ex-deputado, ex-senador, ex-governador do Estado de Roraima.