Opinião
O aconchego do Pai
Que significa a rejeição de Deus na sua providência paterna por parte da cultura ocidental de hoje? Por que o homem o refuta? No fundo, a rejeição do Pai é medo de encarar a morte, de aceitar que não viemos de nós mesmos e não permaneceremos aqui para sempre. Viver é conviver com a ideia que tudo, antes ou depois, terminará. A perspectiva da morte compromete, a cada momento, o sentido da vida: o que haverá após a morte? Que sentido tem minha vida? Para onde vão meus esforços, sofrimentos, renúncias, minhas poucas consolações? O Pai aparece, neste horizonte, como aquele ninho de amor e aconchego ao qual podemos nos abandonar sem reservas, o porto onde nossos cansaços e ânsias repousarão, o coração no qual temos a certeza de não sermos rejeitados. O Pai é, portanto, a evocação da origem, da ânsia e da saudade de felicidade que sentimos; é evocação do seio materno, da pátria, da casa, da intimidade, daquele diante de quem podemos ser nós mesmos, da Face bendita à qual podemos olhar sem temor. O Pai é a chance de voltar a viver a vida com um coração de criança, de experimentar a existência como gratuidade... A necessidade que o homem tem do Pai é equiparável à necessidade de um ponto de referência, de um refúgio, uma intimidade, de ser compreendido e acolhido. O Pai é pai e mãe! Sem esse seio acolhedor o homem se desumaniza, desestrutura-se, perde sua identidade e o sentido de vida e de relação com o mundo e com os outros: sem consciência de ser filho o homem perde também a consciência de ser irmão! Sem o Pai, o homem adoece! A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do homem para a comunhão com Deus. E não vive plenamente segundo a verdade a não ser que reconheça livremente aquele amor e se entregue ao seu Criador. Acolher em nosso coração, em nossa vida, o Pai como Jesus acolheu, é ter a vida de verdade, é compreender a existência como graça, como aconchego, como ninho de amor. Não estamos sozinhos, num mundo frio, escuro e indiferente ao nosso caminho; nossa existência dá-se diante do olhar de um Deus cheio de ternura e amor! A existência pode e deve ser vivida como aventura, poesia, encanto! ?Se Deus existe, ele é cantor, é poeta; se Deus existe, ele é amor!? Santa Teresa d?Ávila dizia: ?Vossa sou, para vós nasci! Que quereis fazer de mim?? Perguntava isso ao Pai com a maior simplicidade e confiança, precisamente porque experimentava a Paternidade de Deus! Se tivermos a consciência da paternidade de Deus, podemos, com misto de assombro e abandono, exclamar: Pai, teu mar é tão imenso e meu barco é tão pequeno... (*) É bispo auxiliar de Aracaju-SE.