Opinião
Resili�ncia: encontro entre raz�o e f�
A resiliência é um fenômeno de recente interesse na psicologia. Embora há mais ou menos vinte anos venha sendo investigado, é sobretudo nos últimos cinco anos que estudos revelaram a sua dinâmica. Na física, a resiliência é a capacidade que um material possui de aguentar pressão sem sofrer deformação. Respeitada as diferenças de cada campo do saber, na psicologia resiliência significa a capacidade de resistência e superação do indivíduo às diversas situações traumáticas da vida. Estas situações podem ser os sofrimentos próprios da vida humana, como a perda de um ente querido, ou a violência urbana. A resiliência pode ser espontânea no indivíduo ou aprendida por um processo psicoterapêutico. Em ambas, o papel da fé, apontada pelos próprios estudiosos, faz toda a diferença. Crer ajuda a assumir os sofrimentos, e, uma vez aceitos, estes podem ser redimidos. E tratando-se de fé, é questão de justiça destacar: há tempos as palavras de Jesus sobre assumir a cruz e segui-lo (cf. Mt 16,24-27; Mc 8,34-38; Lc 9,23-25), fundamento da concepção cristã acerca do sofrimento, foi considerada por muitos como motivação ao conformismo. O Cristianismo seria a religião dos masoquistas e dos derrotados. Nesse contexto, inúmeros santos e místicos cristãos, por fazerem de suas provações verdadeiras fortalezas no caminho da vida, foram tratados, diversas vezes, como transtornados mentais. Mas nada como o tempo para selar fissuras, diminuir distâncias e acabar com a falsa lacuna entre razão e fé. Na Alta Idade Média, ao contrário do que o preconceito iluminista e a cantilena esquerdista ainda propagam na ideologizada educação universitária no Brasil, o homem ocidental possuía uma visão do mundo, da vida e de si mesmo extremamente positiva. Esta visão era conseqüência de uma vida de fé na qual tudo fazia sentido, tudo era bem vivido e assumido, inclusive o sofrimento e a morte. A partir da modernidade, passando pelo século das luzes, decaímos quando acreditamos que a deusa razão conseguiria, ao avançarmos nos conhecimentos científicos, nos livrar dos traumas, capazes de se reinventarem a cada época. Decaímos ainda quando acreditamos ser o materialismo histórico o fundamento téorico de um mundo sem injustiças. Agora, convencidos de que a razão não é uma deusa tão poderosa, e sepultada as utopias esquerdistas, redescobrimos que a fé não é obscurantismo e nem o ópio do povo, mas um outro modo de se aproximar do real. A fé abeira-se do real para lhe dar um sentido que não fere ou contradiz a razão. Os estudos sobre a resiliência são um exemplo vivo daquilo que ocorre quando razão e fé se encontram: a compreensão do ser humano é alargada. . (*) É diácono e psicólogo.