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Opinião

A transi��o

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Sou do Recife e aqui resido desde o ano 2000 e, quando da minha chegada, encantei-me de imediato com a nova morada. Mas, naquela ocasião, o que mais me chamou a atenção não fora a beleza da orla, e sim o bom trânsito da cidade. Ao contrário de Recife, que já vivia o caos absoluto do tráfego, Maceió ainda possuía uma quantidade tolerável de carros e motos, de modo que era possível transitar sem aborrecimentos e com fluidez. Evidentemente que, ao passar dos anos ? aquecimento da economia e crescimento populacional ?, os veículos se multiplicaram e ganharam as ruas. Ocorre que, a par dos inconvenientes que toda mudança traz consigo, experimentamos a transição entre o que era antes, fluidez e tolerância, e o depois, trânsito insuportável, ausência de guardas, carros demais, motos insanas, e some-se, por último, a motoristas estressados, ingredientes que compõem o nosso caos de todo dia. É fato que, com exceção talvez de Curitiba, nenhuma capital brasileira possui um sistema público de passageiros que atraia a classe média. Ninguém admite deixar o veículo em casa para andar no ônibus ou em trem, porque tais meios de transporte não oferecem o mínimo de respeito ao consumidor-usuário, assim como também a posse e o uso de carros e motos significam status em nossa sociedade. O que diariamente se vê no trânsito são verdadeiras descomposturas e agressões ao próximo, beirando, em alguns casos, as raias da loucura e insanidade mental de alguns motoristas que, pensando em vantagem, desconsideram as mínimas regras de convivência entre os humanos e agem como se tivessem saído da jaula do zoológico. É simplório dizer que o ?stress? é a causa de tudo. Dizer que não mais aguenta o trânsito e não mudar o próprio agir é o mesmo que jogar o lixo na rua porque não avistou o lixeiro. Falta de educação, nada mais. Aqui mesmo, perto de onde moro, tem uma escola particular onde, perto do fim do dia, o entorno vira um verdadeiro inferno. Gente que acha que o ato de ?pegar? os filhos pode virar balbúrdia, com buzinas ao extremo. Pessoas que deveriam sentir-se bem ao encontrar os seus filhos e que, na verdade, transformam esse reencontro num pesadelo. A questão é que as classes ?média? e ?alta?, que residem em fortalezas verticais e que abrigam em suas garagens dois ou mais veículos, esbarram em suas próprias ideias de progresso material e delas não abdicam. Cada um com o seu (carro, lap top, iPod, celular) e cuidando de si, e quem estiver à frente que se vire para sair dela. Portanto, se é verdade que não podemos ?passar por cima dos outros?, seja na hora de ir ou voltar do trabalho, seja na hora de buscar nossos filhos na escola, que pelo menos tenhamos mais tolerância, de modo a tornar o ato de dirigir mais humano e mais silencioso, como foi um dia. Estamos em transição, o melhor é entendê-la e a ela adaptar-nos, sem desesperos ou histerias costumeiras. Do contrário, a tendência é piorar. (*) É procurador do Estado

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