Opinião
Os beijus e as tapiocas
Conta-nos com saudade e olhos marejados sobre a preferência de seu pai por beijus e tapiocas, o Luis Souza Júnior, amigo e colega médico hematologista, durante café da manhã de um sábado chuvoso de fim de setembro, no Hotel Ponta Verde, onde a conversa corria lenta e pastosa, como um doce de jaca que teima em não dar o ponto de cozimento. Conta-nos que seu pai tinha um compromisso consigo mesmo todas as sextas-feiras de ir ao mercado da produção, ainda antes do sol nascer. Fazia compras variadas, mas algumas eram infalíveis: sempre na dona Zefinha, adquiria algumas tapiocas e beijus para os filhos que ficavam em casa ainda dormindo. Programava-se para ser sempre a última compra, pouco antes de pegar o carro para voltar para casa. Fazia questão que os acepipes chegassem ainda quentinhos em casa para o café da manhã,ocasião na qual, coincidentemente, os meninos estavam acordando. Era a festa. Manjar dos deuses,ao clarear o dia, que o tempo e os break-fests do mundo inteiro, rodado por Júnior e Betinha, jamais superou. Depois que o pai faleceu, Júnior passou a ele mesmo ir todas as sextas-feiras, no mesmo horário à procura de dona Zefinha e lá comprar as tapiocas e beijus quentinhos. Mas, agora, não para ele, nem para o irmão,crescido e também médico consagrado,nem para os filhos, todos morando lá na distante pauliceia. Passou a levar os quitutes para a mãe. Até que no ano passado a mãe também se foi para sempre. A sensação de vazio, então, jamais foi tão grande. Tão espaçosa. Tão dolorosa. Júnior, hoje,continua indo religiosamente ao mercado todas as sextas-feiras, mas, com os filhos estudando e trabalhando longe, não tem com quem compartilhar as tapiocas, os beijus e as saudades. Daí em diante, todos os presentes retiraram do fundo do peito alguma recordação fixada a ferro e fogo nos desvãos do tempo, até eu: minha mãe e seu pastel de carne com levíssima camada de açúcar,seu bife de panela,seu peixe,e principalmente, seu carinho, seu zelo, sua eterna paciência com os filhos e o marido. Quantos de nós não temos um espaço vazio no coração,imenso buraco negro para o qual não existe mínima possibilidade de preenchimento?O que fazer, a não ser aproveitar uma manhã chuvosa de setembro e ao ombro solidário dos amigos lamentar as perdas e vazios que a vida, inclementemente, vai nos trazendo ? E a chuva, como se solidária às nossas recordações, cortina impávida e compacta,continuou sem cerimônia alguma em seu perene ofício de semear a terra para que a vida continue. (*) É médico.