Opinião
Carta atrasada
Encerrada a longa greve dos funcionários dos Correios, a estimativa da empresa é de que cerca de 3,5 milhões de correspondências estejam depositadas, inertes, em Alagoas. Um grande prejuízo para os usuários, pois muitas dessas correspondências já não servirão para nada, em função de se referirem a datas hoje vencidas. Nesse item das missivas inutilizadas encontram-se os boletos bancários. É indiscutível o direito dos carteiros em lutar por melhores salários e condições mais adequadas para trabalhar. O discutível, como em todo caso onde o serviço de utilidade pública, é se a forma de luta, a greve, é a mais apropriada. Como em todas as paralisações de serviços públicos, ao fim, o único prejudicado é o público. Finda a greve, feito o acordo, acertam-se os gestores e os trabalhadores. A paz é selada, as mágoas esquecidas, os serviços retomam ao normal a partir do reinício dos trabalhos. Mas o prejuízo acumulado, pelos usuários, no período de paralisação, nunca é reposto. Cartas envelhecidas, mensagens superadas, boletos de pagamento com datas vencidas... No caso das correspondências acumuladas, sua entrega tardia tem valor sentimental na maioria dos casos, noutros casos o valor emocional é a raiva pela lembrança do transtorno causado pela perda de data de um pagamento ou recebimento. É verdade que existirão cartas velhas que servirão para algo; tudo é possível. Finda a greve nos correios, mais uma vez o público pagou o pato. Pagou caro e não tem a quem reclamar. Nem mesmo ao carteiro, afinal ele estava lutando por seus direitos. É, mais uma vez, amargar o prejuízo. E, esquecendo as mágoas, quem sabe, cantarolar os versos famosos da canção ?Mensagem?, de Cícero Nunes e Aldo Cabral: ?Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou/ Com uma carta na mão/ Ah! de surpresa, tão rude/ Nem sei como pude chegar ao portão?.