loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
terça-feira, 04/08/2026 | Ano | Nº 6281
Maceió, AL
26° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

A m�e da pol�cia

Ouvir
Compartilhar

Nos anos 80, iniciando minha carreira policial, tive o prazer de conhecer a delegada de polícia Aureni Santos Moreno, titular da Delegacia de Menores da Capital, onde passou a maior parte de sua vida dedicada aos menores infratores, que a chamavam de tia, mas cuidava deles com o carinho de mãe. O rigor na disciplina e aplicação da lei aos seus meninos e meninas que ali recebia contrastava com o imenso coração que chorava o infortúnio de muitos deles, vitimados pela violência. Aureni também era referência para os seus meninos da polícia, sempre ofertando o ombro amigo nos momentos difíceis, quando o mundo se virava contra eles. Acompanhava todos os julgamentos envolvendo policiais que mereciam seu carinho, sofria com eles e derramava suas lágrimas com muita facilidade, contrastando com a fortaleza que protegia a todos. Era pura emoção. A convivência com a criançada desviada mantivera a alegria de menina da delegada e até mesmo a rebeldia própria da idade de sua clientela, comportamentos repetidamente mostrados nas reuniões de classe por meio dos gritos em defesa de sua causa e do riso aberto nas conquistas. A menina, a quem eu tratava de ?Maluquinha?, e ela devolvia no gênero. Cuidou da saúde de muito policial que caía enfermo ou vitimado por criminosos, mas descuidou muito da sua e foi surpreendida por um câncer que nela se instalou com muita intensidade, causando-lhe a morte. Fui visitá-la apenas uma vez; não tive coragem de vê-la triste, definhando, uma covardia, confesso. Não conheci a residência dela, pois sempre a encontrava na delegacia, sua casa, ao lado da filha Cássia Maria, que se tornou policial, acredito, para ficar junto à mãe. Na atividade policial, pouco se preocupava com a beleza exterior. Vestida em inseparáveis calças jeans, camisa por fora e cabelos raramente domados, apresentava-se como uma guerreira sempre pronta para o combate. Na despedida, dentro da urna fúnebre, mostrava beleza que não havia notado, de vestido, o rosto maquiado e os cabelos cuidados por suas fiéis amigas estampavam a paz e a tranquilidade próprias da guerreira que cumprira a missão que lhe fora confiada, como se estivesse esperando outra. No luto, muitos irão repetir que a perda da Aureni é irreparável, o que é absoluta verdade, mãe não é substituída. A polícia ficou órfã. (*) É delegado de Polícia Civil ([email protected]).

Relacionadas