Opinião
Benjamin e o acerto dos ponteiros
Até o dia 26 de fevereiro do próximo ano, 11 Estados brasileiros vão conviver com uma hora adiantada em relação aos demais entes federados. É o horário de verão em sua 41º edição, desde que foi adotado pela primeira vez no Brasil, em 1931. No mundo, a ideia surgiu pela cabeça do inventor americano Benjamin Franklin, em 1784. Ele chegou a publicar artigo na França defendendo a medida como meio de economia da cera de vela, numa época em que não havia energia elétrica. Mas a tese não foi bem recebida nem em sua terra natal. No meio dessa história de adiantar eventualmente em uma hora os ponteiros dos relógios, há algo curioso a ser examinado. Para tanto, precisamos viajar no tempo e retroceder a 5 de novembro de 1913, quando o presidente Hermes da Fonseca, sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, decretou a regulamentação da ?hora legal? no Brasil. Cada país assim procede, de acordo com suas peculiaridades, legalizando até várias horas distintas em seu território. Então, Fonseca estabeleceu que os Estados do nosso Nordeste pertencem ao segundo fuso, representando menos três horas em relação a Greenwich, localidade perto de Londres, em torno da qual se convencionou internacionalmente a divisão do globo em Oriente e Ocidente. Pela referência de Greenwich, Fernando de Noronha, Brasília e Manaus, de forma respectiva, estão nos meridianos de 30, 45 e 60 graus. A costa leste do Nordeste, incluindo a nossa Maceió, está no meridiano de 35 graus. Sendo assim, a nossa referência de horário está mais para Fernando de Noronha do que para a ?hora legal? de Brasília. Portanto, ?entroncharam? o meridiano para incluir a região nordestina no horário brasiliense. Caso fosse obedecida a lógica do meridiano, a alvorada em nosso litoral, por exemplo, começaria às 6h20, com o anoitecer chegando às 18h20. No horário de verão deste ano, apenas a Bahia resolveu adiantar os ponteiros e ?desentortar? o meridiano envergado por Fonseca, no começo do século passado. Cultivo o entendimento de que a eventual adesão baiana ao horário de verão deveria se constituir em assentimento coletivo e definitivo do Nordeste. Corrigir nossos ponteiros significa aproveitar bem mais a luminosidade ofertada por nossa região, o que torna o dia mais longo e melhor aproveitado, do ponto de vista da atividade econômica e da moderação no consumo de energia elétrica. As vantagens coletivas são bem mais acentuadas do que os incômodos narrados. No mais, é pedir paciência a Benjamin Franklin pelo curto circuito que sua ideia original ainda provoca. (*) É jornalista.