Opinião
Deus Trino e o homem: amigos e n�o rivais
Há muito, desde a modernidade, atravessando o século das luzes, o homem ocidental vive em guerra com Deus. A presença do último sufocaria a liberdade do primeiro. Não à toa, fez-se necessário decretar a morte cultural de Deus, uma vez que a crença nele não somente não deve mais inspirar a cultura, mas também a prática religiosa, e a ética decorrente dela deve se restringir ao âmbito privado. Essa rivalidade entre o homem e Deus, além de outras razões, deve-se principalmente a uma interpretação errada daquilo que seria o próprio ser de Deus. O Deus revelado por Jesus Cristo não anseia roubar a liberdade humana, mas, ao contrário, deseja impulsioná-la, levando-a à sua plena realização. Essa compreensão deficiente acerca de Deus encontra origem no fato de a divindade cristã ser, muitas vezes, confundida com o Deus das outras fés monoteístas. O Deus cristão, de fato, é um só. Porém, não é sinônimo de solidão, de um ser estático ou de um Deus desejoso de impor sua vontade, não cabendo ao homem outra atitude a não ser a submissão aos desígnios divinos. O Deus cristão é uno na sua essência. Mas essa natureza divina está toda no Pai, no Filho Jesus e no Espírito Santo. Deus existe concretamente em três pessoas. E essa realidade constitui toda a novidade e o diferencial da mensagem cristã sobre Deus e, consequentemente, sobre o homem. O Pai é aquele que, na Trindade das pessoas, dá tudo ao seu filho e o envia para a salvação da humanidade. Deus, o Pai, é para o homem modelo de doação total, de existência cujo sentido se encontra no movimento de sair de si mesmo e ver-se no outro. O Filho Jesus Cristo, por outro lado, é a pessoa trinitária que tudo recebe do Pai, inclusive a missão de redimir a humanidade. E receber tudo exige docilidade, abertura, um amor acolhedor. O Deus Filho é, para a humanidade, referência de acolhimento ao amor do outro. Em um mundo carente do significado da gratuidade, Jesus ensina que a arte de receber não desumaniza, mas torna o coração ainda mais livre. O intercâmbio dessa relação de amor entre o Pai e o Filho se dá pela presença de uma terceira pessoa: o Espírito Santo. Deus-Espírito é aquela pessoa da Trindade que, na passividade de se deixar entregar, une Pai e Filho. Por isso, torna-se paradigma do amor discreto, cujo silêncio gera vida. Eis o Deus cristão: um dinamismo de amor. E esse dinamismo convida o homem a construir sua vida em parceria com ele. Deus não é, portanto, rival do homem, mas seu amigo. Quando o homem descobre a face do Deus Uno e Trino, descobre a verdadeira liberdade, pois aprende que os seus projetos somente serão plenos quando sua vida for total doação e abertura ao outro, no silêncio da entrega total a cada dia. (*) É diácono ([email protected]).