Opinião
Caminhada m�dica
Como é fantástica essa experiência inaugural, escrever sobre o Dia do Médico, depois de passado 50 anos. É simplesmente meio século de existência como profissional ligado à área de saúde. Eu sei que, no dia 09/12/1961, estava, com a graça de Deus, recebendo das mãos do nosso professor de Parasitologia, dr. Gastão Ferreira da Rosa Oiticica, diploma de médico. É certo que, em 1958, dr. Hélio Medeiros (in memoriam) e eu entrávamos na Santa Casa de Misericórdia de Maceió. E era dr. Abílio Antunes, de saudosa memória, quem nos levava para lá. O Hospital Escola da Faculdade de Medicina de Alagoas funcionava na Santa Casa. E, assim, estávamos no nosso 1º estágio médico no serviço do dr. Abílio Antunes, na Santa Casa. Tínhamos a Santa Casa com seus inúmeros serviços, sobretudo com a santa vocação voltada ao atendimento ao pobre e extremamente necessitado. Nunca se afastando da linha e do pensamento de Jesus Cristo e do seu grande Padroeiro, São Vicente. No nosso estágio de cirurgia no pavilhão 2, tivemos oportunidade de operar alguns doentes com patologias diferentes. Fazíamos o 6º ano de medicina, éramos muito ligados à cirurgia geral. Sempre estávamos auxiliando os cirurgiões do serviço. Com o dr. Abílio e o dr. Raimundo, aprendemos os primeiros passos da cirurgia. É grande nosso agradecimento a todos. Que eles possam receber o amor e brisa de Deus. Como acadêmico do 6º ano de Medicina, estava, como de costume, na Santa Casa. Certo dia, pela manhã, chega um homem, com ferimento infectado na axila esquerda, já com cerca de sete dias de duração. A doença comprometia os vasos da axila, dando necrose da mesma. Tratava-se de uma pessoa da roça e do campo, com seu membro superior esquerdo apoiado em um pedaço de pano. Estava caçando com sua espingarda de chumbo, foi atravessar cerca de arame farpado, colocando o cano terminal da espingarda de chumbo na axila, quando houve o acidente. A arma disparou, atingindo em cheio sua axila. Passou sete dias no interior usando medicação caseira. Examinamos esse paciente e optamos por cirurgia de imediato, era uma emergência. Após os cuidados iniciais: higienização da ferida e áreas vizinhas com água e sabão-assepsia, com ajuda do nosso enfermeiro, fizemos a cirurgia indicada. Desarticulação Escapulo-Humeral. Revisão da hemostasia, drenagem, sutura por planos e sutura da pele. Passou o paciente uns oito dias hospitalizado. Após a retirada dos pontos da pele e dreno, o doente teve alta hospitalar, com recomendação de não voltar a caçar. Dois meses depois chega à Santa Casa, trazendo um saco de carne de caça (paca), o homem no qual tínhamos realizado uma das nossas cirurgias como acadêmicos do 6º ano de Medicina. Foi essa a maneira, não muito agradável, de agradecimento, pois o paciente encontrava-se sobre recomendação médica. Dia 18 de Outubro de 2011, Dia do Médico, que os médicos de todo o mundo possam ter salários e condições de trabalho dignos da profissão que abraçaram, tendo suas tarefas tocadas pela mão de Deus. Lembrando que nós estamos no lugar da nossa divindade maior, sendo todo atendimento realizado com humanização, ética e amor. (*) É médico.