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Opinião

O para�so de Borges

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Em certo trecho de Servidão Humana, Somerset Maughan, exclama: ?Quando leio um livro e topo com um trecho, talvez apenas uma frase, que tenha significação para mim,ele se torna parte de mim?.Com então se separar de algo assim?Por isso tenho levado tantos carões de Ivanelza tentando guardar livros velhos. E nisso sou da turma antiga. Daquela que gosta de pegar no volume; se deleitar já com a capa: ela sugere os prazeres ali guardados? E as informações sobre a obra? A orelha, antessala de nova e inexplorada casa, que pode nos trazer prazeres ainda desconhecidos. Depois, a dedicatória. Pode-se sentir um pouco da emoção do autor: a fez para os pais; a esposa;os filhos; os amigos; a amante; a sogra; o cachorro; o gato? Para quem lhe foi importante na elaboração da obra e na vida.O prefácio, que em algumas vezes compete com a própria obra: um livro de crônicas de Rubem Braga, com prefácio de Domício Proença ? o que pode existir de melhor? Ivanelza, dona de casa exemplar, prima pela limpeza de seu reinado, além de que sofre de uma agressiva e impiedosa alergia. Daí persegue os ácaros como Torquemada perseguia os pecadores. Desconhecendo o conselho de Shopenhauer: ?Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar juntamente com eles o tempo necessário para lê-los?, sempre compro mais do que dou conta de ler e os volumes vão acumulando. Guardo uns aqui,escondo outros ali. Ponho-os em desonrosa e deselegante fila dupla.No sufoco para contrariar as leis da física, Greene fica atrás de Chandler; Llosa atrás de Ruben Fonseca e até Graciliano atrás de Milton Autoum: injustificáveis heresias! Guardo trauma de fatídica mudança de uma casa ampla na José Lages para o apartamento: minha coleção completa de Asterix foi sacrificada para sempre; meus Nobeis e Gênios da Pintura foram condenados ao perpétuo empacotamento até que venha o Juízo Final. Tenho inveja daqueles ambientes domésticos onde o sujeito barbudo, de bermudas rotas,camiseta, chinelo velho,lê;consulta obras; rodeado por montanhas desarrumadas de livros, que ameaçam soterrá-lo. Livro bom pode ser novo ou velho. Mas de papel. Destes que pegamos e marcamos as páginas mais marcantes. Os lemos até na cama, antes de dormir, e os pomos na mesinha de cabeceira, junto com a insubstituível água. Amigo fiel permanecerá ali juntinho. Se a insônia vier, aliviará as nossas angústias e anseios da alma nas longas madrugadas. Borges repetia que o paraíso para ele era uma grande, silenciosa e confortável biblioteca. A 5ª Bienal do Livro da professora Sheila Maluf tem os livros. Tem zoada da criançada. Um paraíso tropical para nem mesmo Borges condenar. (*) É médico.

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