Opinião
Doutor Plutarco
RONALD MENDONÇA * Nascido num bairro de forte influência italiana, foi-lhe dado o nome de origem grega, Plutarco, Plutarco Chemetta ou coisa assim. O nome, nesse momento, não importa tanto. Cirurgião de um grande hospital , Plutão, como era conhecido, mais pelo caráter do que pelo porte físico, lembrava muito um dos atuais candidatos à Presidência da República, sobretudo pela pouca reserva capilar, pelas olheiras e pelo sinistro sorriso. Havia também quem o chamasse de ?Canibal?, e aí não se sabia mais se o apelido era por conta da semelhança física com o psiquiatra Hannibal, personagem do filme ?Silêncio dos Inocentes?, ou se seria pela voracidade com que partia para triturar a reputação dos que lhe faziam sombra. Os desafetos, negando-lhe méritos, diziam, à boca pequena, que boas amizades, bajulações e arapongagens teriam elevado o polêmico cirurgião a um status além dos seus merecimentos, comentários que o grupo pró-Plutão entendia como invejosos. Entre coices e afagos Plutarco seguia em frente, escrevendo teses de mestrado e doutorado; levando trabalhos para congressos; fazendo palestras e conferências. Ouvindo-o falar tinha-se a certeza de que ali estava um notável cirurgião. Seus livros detalhavam técnicas cirúrgicas que assombravam pela ousadia revolucionária. Quase virou mito. Havia, contudo, um detalhe intrigante que nem os amigos e colaboradores mais fiéis do ?Canibal? conseguiam explicar: o homem ia pouco ao Centro Cirúrgico. Durante 30 anos, ninguém jamais o vira iniciar ou concluir uma cirurgia. Às vezes, entrava no campo, ?ciscava? um pouco, arrotava empáfia e delegava o ato aos assistentes. Louvava-se-lhe então a grandeza por dar oportunidade aos mais jovens. Um dia, as contingências o impeliram a disputar a Cátedra de Cirurgia de uma tradicional faculdade. A cachoeira de conhecimentos exibidos na prova teórica não deixavam dúvidas sobre o resultado do concurso. No dia do exame prático, estranhamente, estava pouco à vontade. Sua tarefa seria realizar uma cirurgia delicada, mas que para ele deveria ser um passeio, por se tratar de um caso que tinha sido objeto de estudo de sua tese de doutoramento. Um ar solene dominava o ambiente. Presentes os examinadores e alguns destacados cirurgiões, de ruídos na sala apenas os do resfolegar do respirador artificial do anestesista. Pálido e trêmulo, o grande Plutarco empunhou o bisturi, ameaçando iniciar a incisão. Nesse instante, deu as costas para o doente e caiu de joelhos aos pés do presidente da banca. Quem estava mais perto pôde ouvir, entrecortado por um choro miúdo, num murmúrio quase inaudível: ?Eu não consigo, eu não consigo... Eu sempre comi pela mão dos outros?. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL