Opinião
Finitude humana e ressurrei��o
?Nosso fim não pode ser adiado; está lacrado, não há volta para ninguém? (Sb 2,5b). A morte é a certeza incontestável da vida humana. Se há algo do qual não podemos ter dúvidas, em meio a uma existência de incertezas, é o fato de que um dia seremos tirados da convivência dos vivos. Falar sobre a morte é discorrer sobre a finitude humana. Nascemos com uma cota exata de dias. Em outras palavras, quando viemos a este mundo, iniciamos o cronômetro do nosso relógio biológico: nascemos, crescemos, alcançamos a maturidade, e, em seguida, entramos no crepúsculo do viver, até chegar a nossa última hora. E nesse contexto da finitude humana, apresenta-se o grande paradoxo do viver. Sabemos e reconhecemos ser finitos, mas vivemos como seres infinitos. Sonhamos, amamos e elaboramos projetos como se o amanhã sempre nos fosse uma certeza indubitável. É por essa razão que nas diversas culturas, encontramos a ideia de eternidade. E isso não se deve à negação da morte, uma forma de não aceitarmos a dureza da limitação da vida humana. As diversas formas de o homem manifestar a crença numa vida eterna é expressão concreta do inconsciente coletivo insistindo em nos dizer: somos singulares demais para uma vida que se encerre nos sepulcros. A existência humana torna-se um absurdo quando experimentamos a realidade da morte e do morrer fechando-se à possibilidade do infinito. Afinal, do que adiantaria lutar, amar, construir, e depois tornar-se nada? Jesus, ao assumir a condição humana, assumiu-a com todos os seus dramas, dentre eles ? e principalmente ? a morte. Ele também viveu nesse mundo o drama de partir, de romper com a existência. Mas o fez unido àquele que o poderia livrar da dor da morte, o seu Pai. E este o ressuscitou, não para essa vida, mas para a eternidade. E a força na qual Jesus passou a viver eternamente foi derramada naqueles que nele crêem. Por isso, todo aquele que nele crer, no seu Espírito, terminados os dias nesse mundo, também ressuscitará. Crer na ressurreição não é negar a morte, nem a finitude humana. De fato, temos um punhado de dias nessas plagas, e estes são únicos e irrepetíveis. E por isso, devemos vivê-los com maturidade e responsabilidade. No entanto, cada dia vivido aqui constrói a vida reservada àqueles que no Espírito de Cristo, na sua força, passados pelo vale da morte, viverão eternamente. A comemoração dos fiéis defuntos, no dia 02 de novembro, recorda-nos isso: somos finitos, sentimos saudades e deixaremos saudades, mas somos seres destinados à ressurreição. ?Ora, Deus criou o homem para ser incorruptível e o fez imagem daquilo que lhe é próprio? (Sb 2,23). Por isso vale a pena viver e fazer os nossos sonhos se tornarem realidade. (*) É diácono ([email protected]).