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Opinião

Lula e os companheiros

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A notícia de que Lula está com câncer de laringe, infelizmente, não pegou a nós oncologistas de surpresa. Consumidor habitual de dois dos maiores fatores de risco ? fumo e bebida alcoólica ? para o câncer e em especial para os tumores da cabeça e pescoço, Lula é apenas mais uma das milhares de vítimas entre seus usuários contumazes. Todavia, o caso de Lula, escapa da rotina por dois aspectos:o diagnóstico ter sido feito em tão pouco tempo e o tratamento ter sido iniciado apenas com quimioterapia, o que foge à maioria dos protocolos terapêuticos internacionais. A realidade do País é outra:dificilmente um paciente queixando-se apenas de rouquidão, conseguirá pelo SUS chegar a um diagnóstico de câncer em tão pouco tempo. A média nacional é pelo menos seis meses ? quando já existem dores fortes e metástases linfáticas (gânglios comprometidos no pescoço), o que torna o tratamento difícil e o prognóstico extremamente sombrio. O tratamento ser iniciado apenas com quimioterapia, sabidamente, uma arma terapêutica importante no tratamento do câncer, mas que nestes casos, é uma coadjuvante e nunca o arma principal, também ganha conotação questionável que só o tempo esclarecerá. Lula viveu em sua trajetória política dois momentos extremamente antagônicos em relação ao SUS:um, quando ainda líder sindical perdeu a sua primeira esposa e um filho em hospitais do SUS pouco qualificados;momento no qual criticou severamente o atendimento do Sistema; outro, quando já presidente,alardeou que o SUS chegava perto da perfeição. Em ambas as ocasiões exagerou:no caso específico do atendimento ao câncer no Brasil, o grande gargalo se encontra na média complexidade (exames complementares para o diagnóstico),conseguindo realizar este diagnóstico, os tratamentos de alta complexidade, como químio e radioterapia são efetuados satisfatoriamente.O Ministério da Saúde,sabe desta realidade, mas até agora não desatou o nó. Lula,Dilma Rousseff e José Alencar, com a divulgação de suas enfermidades,se expuseram e contribuíram significativamente para a desmistificação desta doença. Nada, entretanto, foi repassado para a melhoria das condições de diagnóstico mais precoce na rede de atendimento ao SUS. Lula, dono de uma biografia riquíssima, poderia engrandecê-la ainda mais:após concluir esta dura jornada,refeito; deveria auxiliar no combate ao tabagismo, na redução do consumo de álcool e na minimização desta tragédia que acomete a maioria de seus eleitores do SUS acometidos pelo câncer: o diagnóstico demorado e tardio desta enfermidade;fator fundamental do péssimo prognóstico destes casos. (*) É médico.

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