Opinião
Poder global, crise e conflitos
Os recentes acontecimentos internacionais confirmam que estamos vivenciando uma profunda crise global do capitalismo. Mas essa não é somente mais uma crise global do capitalismo como outras. As suas particularidades estão merecendo a devida atenção dos economistas, cientistas sociais e militantes políticos, porque há algo de muito grave nos fatos em desenvolvimento. As tormentas financeiras que estão sacudindo os Estados Unidos e a Europa provocam uma onda de descontentamento popular crescente, em que se questiona o próprio sistema advindo da chamada nova ordem mundial, exigindo uma reflexão crítica do capitalismo. E, além do mais, ampliam-se os sinais de crise política. Na Itália, o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, uma reedição da ópera bufa, foi até agora mantido no poder pelos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha e deverá renunciar para que surjam alternativas à direita, menos desgastadas, que implementem ajustes fiscais neoliberais sempre conduzindo os italianos ao abismo. A Espanha patina sem saídas concretas para o desastre econômico em que foi metida. Já o povo grego foi sustado pela Comunidade Europeia, e os EUA de votar em referendo se desejavam ou não a forca no próprio pescoço. Em todos esses episódios, tem sido decisiva a presença do complexo militar-industrial-midiático hegemônico sob o comando norte-americano, que tem sustentado militarmente e ideologicamente toda espécie de intervenção armada, cinismo, desinformação e brutalidade. Por outro lado, há uma tendência de deslocamento estrutural de poder econômico e geopolítico no cenário mundial, cujos atores principais são Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, com maior ênfase na China, mas que não vem se processando pacificamente porque são cada vez maiores os conflitos de interesses e a resistência imperial norte-americana contra uma nova realidade global multipolar em persistente concretização. Por exemplo, os Estados Unidos têm sabotado o Brasil em suas iniciativas de integração com as demais nações sul-americanas, como a rodovia bioceânica, do Atlântico ao Pacífico, entre o Porto de Santos e os de Arica e Iquique, no Chile. Intensificou, por meio de campanha cultural e midiática, a propaganda de uma sociedade fragmentada, multiculturalista, entre nós, além de tentar boicotar o avanço da consciência política e a mobilização da juventude brasileira. (*) É advogado.