Opinião
Falta o olhar regional
>> JOALDO CAVALCANTE é jornalista e ex-secretário de Comunicação do Estado. Até o próximo final de semana, o calendário deste mês de novembro insere historicamente Alagoas em duas datas significativas para o Brasil, tendo uma delas repercussão de cunho internacional. Na terça-feira, 15, o País vai feriar na passagem dos 122 anos da Proclamação da República. E no domingo, 20, registra-se o Dia da Consciência Negra, em homenagem ao líder negro Zumbi dos Palmares, torturado e morto há 316 anos, quando foi encontrado em seu esconderijo, na Serra Dois Irmãos, Viçosa. Na Proclamação da República, dois alagoanos protagonizaram momentos decisivos e marcantes na História do Brasil. Marechal Deodoro da Fonseca, que nasceu na originária vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, que, posteriormente, seria batizada com o nome de seu filho ilustre. Ao norte de Maceió, em Ipioca, originou-se Floriano Peixoto. Portanto, saíram de Alagoas os dois primeiros presidentes da República, com participação destacada na fase de encerramento da Monarquia para a implantação de um novo sistema de governo. No caso do líder Zumbi, o herói da ?República dos Palmares?, na Serra da Barriga, há reconhecimento internacional sobre seu papel na luta conta a subjugação da vida humana e o comércio de escravos, cuja crueldade infestava os engenhos, os canaviais e os cafezais em todo o período colonial, até bem próximo do século 20. Não se pretende, aqui, fazer a exaltação, o culto à personalidade desses personagens, nem discutir suas atitudes, recheadas ou não de controvérsias, em determinadas conjunturas históricas. Na verdade, ao mencionar Deodoro, Floriano e Zumbi, apenas pelo critério de proximidade das efemérides, poderia também estar elencando outros alagoanos. Desejo, isto sim, ressaltar o péssimo hábito das autoridades brasileiras de tratar mal a própria memória da nação, em gestões subsequentes e nas diversas esferas de poder. É, lastimavelmente, uma herança que vem do processo de colonização. Veja que D. João VI, ao sair às pressas de Portugal, esqueceu de embarcar os caixotes de livros da biblioteca real. O fato é que o nosso País, a despeito de ter adotado o federalismo, convive até hoje com um modo centralista de exercício do poder. Aqui vale lembrar o Manifesto Republicano de 1870, cujos signatários alertavam para a ameaça de se manter uma estrutura centralizada, razão pela qual viam no Estado federativo a segurança da unidade nacional. Coincidentemente, nesse ano, o alagoano Aureliano Cândido Tavares Bastos, aos 31 anos, lançou o livro ?A Província?, um tratado em defesa da descentralização no Brasil. Na defesa de seu ideal, criticou: ?cria-se um País oficial diferente do País real em sentimentos, em opiniões, em interesses?. Na Bahia, o dia 2 de julho, feriado, é motivo de comemoração e de profunda significância histórica para seu povo. Basta ir lá testemunhar. Mas o que fizeram? Escolheram o nome de Luiz Eduardo Magalhães, filho do ACM, para rebatizar o aeroporto 2 de Julho, numa afronta a tudo que representou a luta dos baianos no processo de conquista da independência. E assim se faz pelo Brasil afora com nomes de localidades, logradouros etc e personagens. No final das contas, é uma estupidez, já que as distinções e as referências históricas, em última instância, robustecem a identidade e contribuem para o próprio processo de desenvolvimento. Falta preservar o olhar regional. O Manifesto de 1870 é contemporâneo, pois a integração federativa efetivamente ocorrerá pelo respeito à diversidade. É fundamental respeitar as diferenças e enaltecê-las para se consumar a unidade. Por que os sulistas gostam do Nordeste? Por que os nordestinos adoram as serras gaúchas? A resposta está nas diferenças, nas peculiaridades, na cultura. No mais, é continuar pedindo paciência a Zumbi e aos demais vultos históricos alagoanos pelo esquecimento a que são submetidos por nossas autoridades.