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Opinião

Uma ferida na paisagem

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>>Fernando Fiúza é poeta e professor de Literatura na Ufal Para nós, maceioenses, aquele tenebroso monstro nos arrecifes da Ponta Verde, sobre colunas de concreto revestidas de craca e encimado por tétricas telhas de amianto, parece fazer parte da paisagem, pois jaz ali há quatro décadas. Mas, por um instante, peguemos emprestados os olhos de um turista, num salutar exercício de desautomatização perceptiva. Chego num vôo da madrugada e vou para um dos hotéis da Pajuçara ou da Jatiúca. Durmo pouco, a sede de ar marinho é maior que o cansaço, e desço para o café da manhã. Encho os olhos com o colorido das frutas, mas parto direto para a tapioca com queijo coalho. Volto ao quarto, visto um calção de banho, passo protetor solar, boto boné e óculos escuros e saio de sandálias de dedo para reconhecer o terreno. Não vou direto à areia, prefiro caminhar pelo calçadão ? sou paulista, sou mineiro, sou goiano, tenho agonia nos pés. Sinto o poder tonificante do iodo, trazido pela maresia, em meus pulmões fuliginosos; a graça da brisa no rosto; a paz do verde do mar nas retinas cansadas de concreto. De tão deslumbrado, não vejo os cheiradores de cola, nem os fumantes de crack zanzando em torno como zumbis. Porque preferi o calçadão, poupo-me das línguas negras e fedidas, uma em frente ao Iate Clube e a outra, ao prédio onde mora o governador. Para retardar ainda mais a vagarosa caminhada, bebo uma água de coco e lembro a canção de Vinícius (?Um velho calção de banho,/ um dia pra vadiar...?). Penso em acender um cigarro, mas é ruim fumar no vento e, no mais, estou tentando parar ? tenho perdido namoradas por conta deste nocivo e prazeroso hábito. Se saio da Jatiúca, vejo ao longe um pequeno farol pintado de vermelho e branco, que já conhecia do folder me dado na agência de turismo. Compreendo então a fixação por faróis do poeta Lêdo Ivo, de quem trouxe uma antologia na bolsa. Paro defronte a uma banca de jornal, passo a vista nos diários locais ? violência e corrupção, como na minha cidade, como no Brasil, como no mundo: o roubo do pobre e o roubo do rico. Retomo a caminhada, e começo a sentir a força do sol do Nordeste, como se tivesse ingerido uma droga. Deve ser difícil trabalhar por aqui. Dá vontade de mergulhar, mas ainda me sinto inseguro, sou um pobre banhista de piscina, prefiro andar mais um pouco. É quando surge à minha frente uma bizarra construção que vai da areia ao mar, exatamente na curva da praia. Tiro os óculos, esfrego os olhos, volto a botá-los, senão cego de tanta luz. Pergunto a uma cariada vendedora de amendoim o que é aquilo. ?Sei não, senhor. Parece que é um clube, Alagoinha.? Penso em retrucar: que clube é aquele cuja passarela de chegada começa num muro alto? Mas desisto. Prefiro andar mais um pouco, ver a estrovenga por outro ângulo. Constato que ela avança mar adentro, além do que seria um pobre salão de baile. Desço à areia, aproximo-me das colunas que o sustentam. Não chego a andar entre elas, fico a uma distância segura, mas suficiente para perceber o que se passa ali ? o comércio de corpos masculinos. Afasto-me, volto à calçada, sento num banquinho bambo embaixo de uma sombrinha, justo em frente ao estrupício. Peço um acarajé, sem pimenta, e cerveja. Começam então a passar na cabeça filmes de terror: monstros (metade gente, metade polvo) estrangulando casais desprevenidos que vão ali namorar em noite de lua; sereias com olhos de fogo cantando música sertaneja para bêbados, depois os afogando nas poças d?água entre as pedras; moreias com dentes de ferro oxidado mordendo os calcanhares de turistas imprudentes... Chega o acarajé no fim da primeira cerveja. Peço outra. Dou uma mordida (Valha-me Deus!), depois outra, até varrer os monstros da mente. E eis que me surgem uma pergunta e uma solução: por que não enfiar bananas de dinamite nas colunas e paredes e mandar aquilo pelos ares num domingo de sol, com o devido isolamento e câmeras de TV por todo lado? Por que não devolver ao mar o que é do mar e aos peixes o que é dos peixes? No fim da segunda cerveja, posso ver a Ponta Verde sem aquela ferida infame, feita de cimento, pedra e vergalhões. Volto ao hotel, tomo um sal de frutas e durmo a tarde toda.

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