Opinião
Pobres ajudando ricos: velha receita colonial
Numa primeira visão, os insistentes pedidos de apoio financeiro dirigidos, aberta ou veladamente, do primeiro mundo ao terceiro mundo sugerem uma radical inversão de valores entre ricos e pobres. Mas será isto mesmo? Em verdade, ao olharmos atentamente o que acontece nesta quadra de tempo, notaremos que mudanças efetivas existem nos posicionamentos globais, mas as mudanças reais estão longe de ser radicais, conforme sugerem as aparências. Além da recente reunião do G20 ter levantado essa questão e um esforço de ajuda pecuniária à Europa tenha sido aventado em relação ao Brasil (opção denegada, com polidez diplomática, pela presidente Dilma), chamou a atenção da mídia lusófona a visita do primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, à Angola. Segundo divulgado, o premier lusitano, uma vez em Luanda, colocaria em pauta o ?interesse do governo angolano em comprar ações de algumas estatais portuguesas?. O olho dos ex-coloniais lusos estaria focado no crescimento excepcional registrado por sua ex-colônia. Angola, agora, está a crescer numa faixa de 12% ao ano. Pergunta-se: estarão as ex-colônias invertendo as posições e assenhoreando-se de seus ex-colonizadores? Ingênua resposta pode apressar-se em proferir um ?sim?, num cometimento de atroz erro. Economia e política são umbilicalmente ligadas, mas transformações políticas globais nunca foram reflexo imediato do balouçar das ondas e marolas econômicas. Brasil, China e Índia já tiveram seus tempos de colônia, assim como toda a África negra. São países ascendentes, isto é certo, mas ainda patinam na luta (cruenta) pelo protagonismo político internacional. Os pedidos de ajuda emitidos pelo primeiro ao terceiro mundo devem ser escutados com redobrada atenção. Com experiência adquirida por séculos de exploração colonial, os apertados de hoje ainda têm sapiência de sobra para revitalizar a caudalosidade do fluxo de capitais na direção e sentido colônia/metrópole. Dourarão a pílula, lá isso é verdade, mas o resultado final do remédio será o mesmo. Ascendentes, lembrai-vos da filosofia popular: ?Mateus, primeiro os meus?.