Opinião
BEIJOS, AFAGOS E A REFORMA DO MUNDO
Recentemente, uma campanha publicitária, de gosto duvidoso e um tanto desrespeitosa, apresentou líderes mundiais trocando beijos. A finalidade da campanha, segundo os responsáveis, é promover o diálogo e a tolerância entre governos, religiões, povos e culturas. Mais politicamente correto impossível. No entanto, tal campanha revela a mentalidade ?paz e amor? ? que na verdade é uma espécie de ditadura branca ? que vem tomando força em nossa cultura. Tal mentalidade ingenuamente propaga que o respeito mútuo, o diálogo e a tolerância entre diferentes, sejam em quaisquer esferas, política, religiosa ou ideológica, dependem unicamente da boa vontade de cada um. Basta um beijinho, um afago, palavras de compromisso e pronto: a paz e a justiça se abraçam. Ledo e pueril engano. Basta olhar honestamente para o coração humano e constataremos a cisão ali presente: o desejo de partilha convive com o egoísmo, a promoção da justiça ocupa o mesmo espaço da sanha de vingança, a vontade de servir caminha lado a lado com a sede de poder. E o mundo nada mais é do que o encontro ou o desencontro desses corações ambíguos. Na obra A reforma da natureza, do grande e ainda não merecidamente saboreado Monteiro Lobato, publicada em 1939, a personagem Emília empreende uma reforma naquilo considerado inadequado na natureza. E, numa atitude de boa vontade, mas ingênua e simplória, inicia a mudanças. Não é necessário dizer o quanto tudo acaba mal. Emília é o ícone da humanidade que segue acreditando serem suficientes palavras mágicas ou gestos simbólicos para tudo ficar como queremos. A reforma do mundo só acontece quando o a reforma do coração humano é levada a sério. A paz, o amor, resultado do respeito mútuo entre povos, nações e religiões é possível, mas quando encaramos honestamente as deficiências presentes na realidade humana. E tais limitações são superadas quando o coração humano sai da sua crosta de egoísmo para a doação. E permita-nos dizer: tal caminho somente é possível quando abrimos o coração a Cristo. Ele nos revela como ir além e selar as fissuras presentes em cada um de nós. Nele, é possível viver a caridade, a benevolência, o respeito ao outro. Aí sim, consequentemente, a paz e a justiça se abraçam, e a reforma do mundo acontece. Corações partidos não transformam o mundo, ainda que o desejem. Para um mundo novo, é necessário homens novos. » JOSÉ LUCIANO DUARTE ? diácono ([email protected]).